Contrair ou relaxar o abdômen no Pilates, um ensaio testou

Mulher deitada de costas sobre um tapete claro, com uma perna estendida para cima presa por uma alça, em sala ampla com janelas

Um ensaio randomizado publicado no Journal of Physiotherapy em 2026 fez uma pergunta que raramente vira estudo, o que acontece quando se muda apenas a frase dita em aula. Foram 152 pacientes com dor lombar crônica inespecífica, divididos em dois grupos de 76, com alocação ocultada e análise por intenção de tratar, submetidos a doze semanas de Pilates, duas vezes por semana, 60 minutos por sessão. Tudo era igual entre os grupos, menos a orientação. Um recebeu instrução de ativação específica do core, o outro recebeu instrução de executar os exercícios de forma relaxada e suave. Ao fim das doze semanas, a diferença média ajustada em incapacidade foi de 1,4 ponto numa escala de 0 a 24 a favor de quem relaxou, com intervalo de confiança de 95% indo de 2,6 a 0,2 ponto.

Esse número merece ser lido devagar, porque ele desmonta e confirma coisas ao mesmo tempo. Ele desmonta a ideia de que contrair o abdômen é condição para o benefício, já que o grupo que não contraiu não ficou pior, ficou levemente melhor num dos desfechos. E confirma que a diferença entre as duas instruções é pequena, porque um ponto e quatro décimos numa escala de 24 é uma variação discreta na vida de quem sente dor. As duas leituras cabem no mesmo resultado, e escolher só uma delas é distorcer o estudo.

O que exatamente foi dito a cada grupo?

O grupo de controle recebeu orientação sobre a ativação específica do grupamento muscular do core, descrito no artigo como abdominais, assoalho pélvico, diafragma e musculatura profunda da coluna. É a instrução clássica, aquela que atravessa a formação da maioria das profissionais do método e aparece em quase toda aula de solo e de aparelho. O grupo experimental recebeu orientação para executar o mesmo repertório de forma relaxada e suave. Nenhum exercício foi trocado, nenhuma carga foi alterada, nenhum aparelho entrou ou saiu. Só a frase mudou.

Nos outros três desfechos primários e secundários, o resultado foi de incerteza declarada. Em dor, na escala de 0 a 10, a diferença média ajustada foi de 0,6 ponto a favor do relaxamento, com intervalo de confiança de 95% de 1,4 ponto a menos até 0,2 ponto a mais. Em função específica do paciente, também de 0 a 10, foi de 0,3 ponto, com intervalo de 0,3 a menos até 0,9 a mais. Em efeito global percebido, numa escala que vai de 5 negativo a 5 positivo, foi de 0,6 ponto, com intervalo de 0,1 a menos até 1,2 a mais. Intervalo que atravessa o zero significa que o resultado encontrado é compatível com nenhuma diferença.

Duas características do desenho merecem registro, porque elas são o que dá peso ao achado. A alocação foi ocultada, ou seja, quem incluía os pacientes no estudo não conseguia saber de antemão em que grupo a próxima pessoa cairia, o que impede a seleção inconsciente de casos mais fáceis para o grupo preferido. E a análise foi feita por intenção de tratar, o que significa que cada participante foi contado no grupo em que entrou, mesmo tendo faltado, abandonado ou seguido mal a orientação. Análise por intenção de tratar é a que preserva o sorteio original e costuma reduzir o tamanho do efeito estimado, em vez de inflá-lo. O ensaio está registrado sob o número NCT05336500.

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Para os outros desfechos, dor, função específica do paciente e efeito global percebido, o efeito de manter o abdômen relaxado durante o Pilates foi incerto, com intervalos de confiança indo de aproximadamente tão bom quanto a levemente melhor do que manter o abdômen contraído.

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Conclusão dos autores do ensaio, tradução nossa

Se contrair não é o mecanismo, o que explica a melhora?

Um segundo estudo de 2026, publicado no Journal of Functional Morphology and Kinesiology, foi procurar o mecanismo e não achou onde esperava. Ele acompanhou 96 mulheres com dor lombar crônica, com média de idade de 55,8 anos, divididas entre 49 num programa de oito semanas de Pilates de solo supervisionado, duas sessões de 60 minutos por semana, e 47 em cuidado usual. A medida central era a razão de flexão-relaxamento, que descreve o quanto a musculatura extensora da lombar consegue silenciar quando o tronco chega ao fim da flexão. Em pessoas com dor lombar crônica, essa musculatura costuma não relaxar como deveria, e a hipótese testada era que o Pilates normalizasse esse padrão.

Não normalizou. Não houve interação entre grupo e tempo na razão global, com p de 0,454, nem na amplitude de flexão do tronco, com p de 0,745. A assimetria entre os dois lados chegou a aumentar 11% no grupo que praticou, com p de 0,033, sem mudança no grupo de comparação. E, ainda assim, o mesmo grupo teve redução de 30% na dor, com p de 0,003, e melhora de 13,4% na escala funcional, com p abaixo de 0,001. Os autores registram que a intervenção reduz dor e melhora capacidade funcional sem restaurar o relaxamento do extensor lombar, e que o aumento de assimetria pode refletir redistribuição compensatória ou mal-adaptativa.

Colocados lado a lado, os dois estudos contam a mesma história por ângulos diferentes. A melhora clínica aparece sem que o mecanismo mecânico que se costuma invocar tenha se movido, e aparece mesmo quando a instrução abandona a ativação deliberada. Isso não significa que o método funcione por magia. Significa que a explicação que a área repete há anos, a de estabilizar a coluna por contração do centro, não foi confirmada nesses dois desenhos, e que outros caminhos, do exercício regular à mudança na relação com o movimento, seguem em aberto.

Vale um contraponto de magnitude, para não deixar a impressão de que o método é irrelevante em dor lombar. Uma meta-análise publicada no Journal of Back and Musculoskeletal Rehabilitation em 2026, com busca até 11 de abril daquele ano, encontrou em mulheres com dor lombar crônica alívio de dor com diferença média padronizada de 1,88 negativo, com intervalo de confiança de 95% de 2,46 a 1,31 negativos, e melhora funcional de 1,08 negativo, com intervalo de 1,43 a 0,74 negativos. O efeito do método contra pouca ou nenhuma intervenção é robusto nesse desfecho. O que está em discussão aqui é outra coisa, a explicação de por que ele funciona e a instrução que se dá enquanto ele acontece.

O que muda na aula de amanhã

  • A instrução de contrair não tem, nesta apuração, superioridade demonstrada sobre a instrução de relaxar. No único desfecho em que a diferença foi clara, ela pendeu para o lado do relaxamento.
  • A diferença é pequena, 1,4 ponto em 24. Ninguém precisa refazer método por causa dela, e ninguém deveria defender a contração como inegociável depois dela.
  • A explicação por estabilização mecânica não foi confirmada. Um estudo de 96 mulheres viu a dor cair 30% sem que o padrão de relaxamento do extensor mudasse.
  • Pessoas com medo do movimento podem responder de forma diferente. Um ensaio de 2025 na BMC Psychology, com 54 mulheres, encontrou efeito grande sobre medo do movimento em seis semanas de reformer.

Há uma leitura de ofício que atravessa tudo isso e que talvez seja a mais valiosa. Se a orientação verbal, sozinha, foi capaz de produzir diferença mensurável num ensaio de 152 pessoas ao longo de doze semanas, então o que se diz em aula é parte do tratamento, e não moldura dele. Quem ensina escolhe palavras o tempo todo, e essas palavras chegam ao corpo de quem escuta. É uma responsabilidade maior do que a formação costuma anunciar.

Perguntas frequentes

Então parei de pedir contração do core? O ensaio não autoriza essa conclusão. Ele mostra que a instrução de relaxar não foi pior e ficou levemente melhor em incapacidade. A decisão sobre repertório e comando segue sendo clínica e individual.

O que é razão de flexão-relaxamento? Razão de flexão-relaxamento é a medida de quanto a musculatura extensora da lombar reduz a atividade elétrica quando o tronco chega ao fim do movimento de inclinar para a frente.

Um ponto e quatro décimos em 24 é pouco? É pequeno. Os próprios autores descrevem a melhora como ligeiramente maior, e os outros desfechos ficaram com efeito incerto.

Isso vale para quem não tem dor lombar? Não há resposta nesta apuração. Os dois estudos recrutaram pessoas com dor lombar crônica, e nenhum deles testou população sem dor.

O Pilates continua indicado para dor lombar? A meta-análise de 2026 citada aqui encontrou alívio de dor e melhora funcional em mulheres com dor lombar crônica. O que estes estudos questionam é a explicação do mecanismo e a instrução, não o benefício.

Fontes

Laura Montenegro
Redatora Editorial · PILATES ARCHIVE