Nesta edição, O detalhe que muda tudo
- 01WellnessTrês saltos entre a fisiologia da respiração e a promessa da aula
- 02WellnessO homem no estúdio de Pilates tem quinze anos a mais, e essa é a parte fácil de medir
- 03NegóciosO aluno indicado indica mais, e essa parte fica fora da conta
- 04NegóciosO aluguel não é onde a conta do estúdio se decide
- 05CiênciaO que os ensaios de Pilates medem quando falam de coração
- 06CiênciaO número que 34 de 41 ensaios de Pilates deixaram de fora
- 07LifestyleNinguém perguntou se é pela atenção que elas voltam
- 08LifestyleO estúdio chega depois, e o acesso já estava decidido
- 09Alta PerformanceA frase do professor importa, a receita pronta não sobreviveu
- 10Alta PerformanceA mola vermelha não é um número
- 11TendênciaPor que o Pilates não aparece na lista de encaminhamento
- 12TendênciaO instrutor está entre dois nomes, e quem decide qual vale não é o mercado
O tema desta edição
O detalhe que muda tudo
A mola que fica mais exigente quando afrouxa, a frase do professor que muda o movimento do atleta, e o numero de alunos por sala que ninguem anotou. Doze detalhes pequenos que decidem a aula, o corpo e o estudio.
Três saltos entre a fisiologia da respiração e a promessa da aula
A respiração lenta e pautada tem efeito fisiológico documentado, e ele é agudo, de acoplamento cardiorrespiratório e barorreflexo. Daí até a aula de Pilates o setor atravessa três saltos, e nenhum deles é curto.

A promessa cabe numa legenda de estúdio. Respire devagar, solte o ar mais longo do que puxa, e o nervo vago faz o resto. A parte fisiológica dessa frase existe. Uma revisão sistemática que triou 1.842 resumos e incluiu 223 estudos encontrou aumento da variabilidade da frequência cardíaca mediada pelo vago com respiração lenta voluntária, durante a sessão, logo depois dela e após intervenções de várias sessões.1 O problema não está no efeito. Está no trajeto que o setor percorre entre o efeito e a aula, e esse trajeto tem três saltos.
O primeiro vai do índice para o mecanismo. O que os aparelhos registram é variabilidade da frequência cardíaca, e a parte dela tratada como tônus vagal é a oscilação do batimento que acompanha a respiração. Em 2024, Paul Grossman escreveu que essa oscilação não é índice invariavelmente confiável nem do tônus vagal cardíaco nem do fluxo vagal central para o coração, e propôs lê-la como mecanismo cardiorrespiratório ligado a demanda metabólica.2 Em 2026, um painel de 39 especialistas convidados contestou premissas centrais da teoria polivagal, entre elas a validade desse índice.3 Porges respondeu no mesmo número do periódico, sustentando que a crítica avalia uma versão reconstruída da teoria.4 A disputa está aberta e publicada. O que não é disputa é o hábito de citar como consenso aquilo que está em litígio.
Um estudo piloto de 2026 mostra o tamanho dessa diferença. Com 28 mulheres, a respiração lenta em torno de seis ciclos por minuto fez subir os índices globais e a banda de baixa frequência, enquanto os dois índices que a literatura trata como mediados pelo vago, o RMSSD e a banda de alta frequência, ficaram parados. Os próprios autores leem o resultado como reorganização por ressonância, com acoplamento barorreflexo aumentado, e não como amplificação vagal direta.5 São 28 pessoas num piloto, então ilustra o argumento e não o prova. Ilustra bem, porque o índice que sobe é justamente o que a matemática da banda faria subir quando alguém respira devagar.

Do laboratório para a sala, três hierarquias que não passaram no teste
O segundo salto vai do laboratório para a instrução dada no meio da aula. Três regras que o ensino repete não passaram na checagem. Mais lento é melhor, e um experimento com 166 participantes achou aumento robusto da variabilidade ligada à tarefa a seis ciclos por minuto e a doze, sem diferença confiável.6 Soltar o ar mais devagar do que se puxa, e um experimento original mais a sua replicação não acharam diferença entre a razão de um para um e a de um para dois.7 Seis por minuto é o número certo, e seis é a mediana de 154 pessoas, com o valor individual variando por sexo e altura numa fórmula que explica pouco mais da metade da variação.8 Sobra a promessa maior, tônus vagal para o resto do dia, e num ensaio randomizado de quatro semanas com 88 participantes não houve mudança significativa na variabilidade em repouso.9
O terceiro salto é o menos discutido e o mais decisivo. Tudo que está acima foi medido com respiração diafragmática pautada, em repouso, sentada ou deitada, em torno de seis ciclos por minuto, guiada por marcador visual ou sonoro. A respiração do Pilates é outro objeto, expiração torácica lateral, ativa e forçada, sincronizada ao movimento e ao recrutamento abdominal, no ritmo do exercício e não no do relógio. Quando a pesquisa foi olhar para a respiração do método, mediu outra coisa. Um ensaio randomizado com 62 mulheres encontrou aumento de pressão inspiratória máxima e de volume corrente depois de 16 sessões, sem nenhuma medida autonômica.10 Sem rodeio, não sabemos o que o padrão respiratório do Pilates faz com a variabilidade da frequência cardíaca, porque isso não foi medido.
O estudo que quase todo mundo cita ao contrário
Existe um único trabalho que pôs Pilates e variabilidade da frequência cardíaca na mesma sala, e o problema dele vale mais do que o resultado. Quarenta mulheres, quatro grupos de dez, dez semanas, um grupo só de Pilates em equipamento, um só de respiração pautada, um com os dois e um controle. O resumo afirma que os grupos com Pilates mudaram os índices de variabilidade e que o grupo de respiração mudou apenas desfecho pulmonar. As tabelas dizem quase o oposto. Na respiração isolada, cinco índices mudaram com p igual a 0,00. No Pilates isolado, três pararam na fronteira, com p de 0,05, 0,06 e 0,05.11 O corpo do texto concorda com as tabelas, e é o resumo que está com os grupos trocados. Quem cita pelo resumo publica o inverso do dado.
O efeito agudo da respiração lenta pautada sobre a variabilidade da frequência cardíaca é o achado mais bem sustentado deste conjunto, e nenhuma magnitude aparece aqui porque a meta-análise consultada não traz o número. Ler esse efeito como medida de tônus vagal está sob contestação publicada, com réplica no mesmo número de periódico, e não é consenso em nenhuma das duas direções. Os estudos citados usam amostras pequenas, protocolos de repouso e janelas curtas, o que limita a transposição para uma aula. E o elo entre o padrão respiratório do Pilates e a variabilidade não está fraco nem forte, está ausente.
Nada disso pede que a respiração saia da aula. Ela organiza o movimento e treina musculatura respiratória, e o ensaio com 62 mulheres mostra isso. O que muda é o que se promete. Há ainda uma consequência prática pouco lembrada. Num estudo randomizado com 46 participantes, respirar de forma pautada a seis por minuto durante dez minutos sem orientação derrubou o gás carbônico ao fim da expiração em 5,21 mmHg, com sintomas de hiperventilação, e uma única instrução, respirar de forma rasa e natural em vez de fundo, reduziu a queda para 2,7 mmHg.12 É protocolo de repouso, não de aula, e mesmo assim a direção interessa a quem ensina. Pedir ar mais fundo achando que entrega calma pode estar entregando tontura, e o que acontece com o nervo vago numa aula segue em aberto.
Fontes
O homem no estúdio de Pilates tem quinze anos a mais, e essa é a parte fácil de medir
Em três países, por métodos que não conversam entre si, o público do método aparece na mesma proporção torta. O dado brasileiro que existe é de uma cidade só e mostra outra coisa, mais interessante que a proporção. Quem é homem chega bem mais tarde. Por que ele chega, ninguém mediu.

Em 47 estúdios da cidade de São Paulo, alguém parou para contar quem estava ali dentro. Foram 517 praticantes respondendo a um questionário em papel, 129 homens e 388 mulheres. O número que salta não é a proporção, embora ela também diga algo. É a idade. O homem tinha, em média, 56,1 anos. A mulher, 40,5.1
Quinze anos separam essas duas médias, e elas foram medidas na mesma sala. O levantamento é transversal, de amostra de conveniência, e os questionários foram aplicados em 2014.1 Isso é o que existe. A apuração desta reportagem não encontrou nenhuma estatística oficial brasileira que separe por sexo quem pratica Pilates no país, e o estudo paulista, publicado em 2019 na revista Fisioterapia Brasil, é a melhor evidência nacional disponível justamente porque é a única com números.
A proporção também está lá. Homens eram 129 de 517, ou 24,95% daquele público.1 Perto de um quarto. É mais do que o folclore do setor costuma admitir e é bem menos do que qualquer paridade. E é São Paulo capital, em 2014, com 47 estúdios que aceitaram receber o questionário. Não é o Brasil, e não é hoje.
A assimetria aparece antes da porta do estúdio
Fora do Brasil, a conta é feita de outros jeitos e cai sempre do mesmo lado. No Reino Unido, uma pesquisa de opinião com 1.993 adultos, com campo em 2025, perguntou o que as pessoas praticam. Ioga ou Pilates, numa categoria única, aparece em 20% das mulheres e em 6% dos homens.2 As duas práticas somadas são uma limitação declarada da própria fonte, o número é britânico, e ele mede prevalência na população adulta, não composição de clientela de estúdio. As duas coisas não se substituem.
No Japão, um estudo publicado em 2024 tomou um atalho diferente e mediu volume de busca na internet por termo de exercício, separado por sexo. Pilates reuniu 266.000 consultas, e mulheres respondem por 74,8% desse interesse.3 Homens predominam em corrida, musculação e caminhada em trilha. Buscar não é praticar, e o desenho do estudo deixa isso explícito. Ainda assim, é um sinal que chega antes da matrícula, na hora em que a pessoa está apenas cogitando.
Três países, três metodologias sem parentesco entre si, uma direção só. É o que dá firmeza ao ponto de partida desta reportagem, e é também o limite dele. Nenhuma das três explica por que a assimetria existe.
O que o dado brasileiro diz, e o que ele se recusa a dizer
A tentação seguinte é grande. O mesmo estudo paulista mostra que 45,2% dos praticantes declararam alguma patologia, que 19,2% relataram lombalgia crônica e que 28,8% conviviam com dor havia mais de três meses.1 Bastaria juntar as duas pontas e escrever que o homem chega ao estúdio empurrado por uma queixa física. Só que esses percentuais são da amostra inteira, que é majoritariamente feminina, e o estudo não cruza motivo de procura com sexo. Nenhuma das fontes abertas nesta apuração faz esse cruzamento. Afirmar que os homens entram por dor seria fabricar um dado que ninguém publicou.
O que sobra é indício, e indício declarado como indício continua sendo material jornalístico legítimo. O primeiro é a idade. Quem aparece quinze anos depois na mesma sala tem um perfil compatível com quem chega por motivo, e não por hábito construído desde cedo. Compatível não é comprovado, e a distância entre essas duas palavras é a matéria inteira.
O segundo indício está num lugar bem menos óbvio, na própria estante da pesquisa clínica.

Quase toda pesquisa sobre homens no método nasce dentro de um diagnóstico
Quando se vai procurar o homem na literatura clínica do Pilates, ele quase sempre aparece com um diagnóstico colado ao nome. Um ensaio randomizado publicado em 2017 no Indian Journal of Palliative Care comparou Pilates, método McKenzie e um grupo controle em 36 homens com dor lombar crônica, doze por braço, ao longo de seis semanas.4 É o raro estudo do método feito só com homens. Guarde o resultado dele, porque esta reportagem volta a ele mais adiante.
Os demais seguem o mesmo desenho de nicho. Trinta homens com esclerose múltipla, entre 25 e 40 anos, doze semanas de prática, ganho de equilíbrio funcional a favor do grupo de Pilates.5 São amostras pequenas e populações clínicas bem específicas, e nenhuma delas descreve o homem saudável que resolve procurar um estúdio. Descrevem o homem que já tinha um problema.
A pesquisa de desempenho com homens existe, e é escassa e jovem. Em 2018, na PLoS One, um grupo brasileiro acompanhou 32 corredores homens de cerca de 18 anos, com até nove meses de corrida na vida, durante doze semanas de Pilates de solo. O tempo nos 5 km caiu de 25,65 para 23,23 minutos no grupo do método, contra uma queda de 25,33 para 24,61 no controle, com custo metabólico menor depois do treino.6 É um resultado bonito, e é sobre outra pessoa. Um corredor novato de 18 anos não tem quase nada em comum com o homem de 56 que aparece na média do estudo paulista.
Há ainda um documento que diz muito sobre homens sem citar nenhum. Existe meta-análise dedicada exclusivamente a mulheres com dor lombar, com reduções expressivas de dor e de perda de função, e até um recorte específico para mulheres na pós-menopausa.7 Não existe equivalente dedicado a homens. Isso não é acusação de ninguém, é descrição de onde os dados foram coletados. A base clínica do método foi construída, em boa medida, sobre corpo feminino, e quem entra depois entra numa evidência que não foi montada pensando nele.
O que o método não pode prometer a quem chega com dor
Se a entrada masculina fosse mesmo pela queixa física, seria conveniente que o método vencesse os outros exatamente nesse terreno. Ele não vence. Uma revisão sistemática de onze ensaios randomizados encontrou um tamanho de efeito de 0,44 a favor do Pilates contra exercício em geral para dor, com certeza baixa da evidência, o que quer dizer que estudos novos podem mudar essa estimativa.8
Isso não faz do método coisa inócua. Uma meta-análise de dezenove ensaios randomizados, somando 1.108 pacientes, encontrou redução consistente de dor e de incapacidade em quem pratica.9 O detalhe que importa é que esse conjunto não separa homens de mulheres e é majoritariamente feminino, então o tamanho do benefício medido ali não pode ser transportado para o homem sem ressalva. E a meta-análise em rede mais recente, com 45 estudos, chegou a colocar o Pilates com aparelho na maior estimativa favorável para incapacidade, com confiança moderada, e mesmo assim os próprios autores escreveram que os achados não sustentam uma hierarquia definitiva de eficácia.10
A leitura honesta cabe em duas frases. O método funciona. O método não ganhou de ninguém.
O que aparece quando a dor sai do centro da conversa
Agora o ensaio de 2017 volta. Naqueles 36 homens com dor lombar crônica, Pilates e McKenzie terminaram empatados na dor, sem diferença estatística entre os dois. O Pilates se separou em outro lugar, num índice geral de saúde.4 São doze homens por grupo, um único centro, e ninguém consegue ficar cego para o exercício que está fazendo. O achado não fecha questão nenhuma sozinho. É apenas notável que a separação tenha acontecido fora do desfecho que motivou o estudo.
Um segundo trabalho empurra na mesma direção com outro instrumento. Oitenta e sete homens adultos jovens fizeram uma única sessão de trinta minutos de Pilates de solo e responderam a questionários antes e depois. Caíram ansiedade, fadiga e a perturbação total do humor, com tamanhos de efeito entre 0,22 e 0,51.11 É efeito agudo, de uma aula só, sem grupo de comparação. Não trata ansiedade, não se sabe quanto dura, e mede exatamente aquilo que diz medir, o que 87 homens sentiram na saída de uma aula.
A peça mais próxima da permanência é qualitativa. Vinte e dois adultos com condições musculoesqueléticas crônicas, quinze mulheres e sete homens, de 36 a 83 anos, passaram por doze semanas de Pilates e depois conversaram em grupos focais. O que verbalizaram se organizou em cinco temas, e só um deles é a melhora física. Os outros são retomada de atividades da vida, desempenho no trabalho e em hobbies, ganho de confiança e mais autonomia para se autogerir.12 A amostra é mista e os temas não foram separados por sexo, então nada ali autoriza dizer que homens relatam isso mais do que mulheres. O que ela autoriza é bem mais simples. Quem chega ao fim de um programa não descreve o resultado usando só a palavra que usou na entrada.
A assimetria de público está bem medida, por fontes independentes, em três países, e é o achado mais firme desta reportagem. A diferença de idade média entre homens e mulheres num mesmo estúdio brasileiro também é medida, e vem de um estudo só, de uma cidade só, com dados de 2014. A entrada masculina por queixa física é indício convergente e não é fato medido, porque nenhuma fonte aberta cruza motivo de procura com sexo. A permanência ligada a algo diferente da queixa tem sustentação mais fina, feita de um ensaio pequeno, de um efeito agudo de uma única aula e de um estudo qualitativo de amostra mista. E o método não é comprovadamente superior a outros exercícios para dor lombar, com a vantagem existindo em tamanho modesto e certeza baixa.
O que continua sem medida
Falta pouca coisa para sair do indício, e essa pouca coisa é cara de produzir. Bastaria um levantamento que perguntasse, a homens e a mulheres de um número decente de estúdios, o que os levou até lá e o que os fez ficar, com as respostas separadas por sexo e por faixa de idade. Nada disso é tecnicamente difícil. É só trabalho que ninguém financiou ainda no Brasil.
Enquanto esse levantamento não existir, o que se pode dizer sem esticar nada é isto. O homem aparece bem mais tarde na sala. A pesquisa sobre ele foi quase toda escrita dentro de um diagnóstico. E os poucos estudos que resolveram medir alguma outra coisa encontraram alguma outra coisa.
Fontes
O aluno indicado indica mais, e essa parte fica fora da conta
A literatura de outros setores aponta na mesma direção há mais de quinze anos, o cliente que chegou por recomendação custa menos e rende mais. O setor de fitness nunca produziu o número equivalente. Sobra para o dono de estúdio calcular o dele.

Dois pesquisadores analisaram a base de uma grande empresa de tecnologia móvel, 41,2 milhões de clientes acompanhados ao longo de dez anos. Perto de 30% tinham entrado por indicação de alguém. Comparando os dois grupos e controlando quanto cada um comprava, apareceu o número que interessa a quem toca um estúdio. Quem entrou indicado faz entre 31% e 57% mais indicações que quem entrou por qualquer outro caminho. A chance de trazer ao menos uma pessoa foi de 11,9% entre os indicados contra 7,6% entre os demais, e a média de indicações por cliente ficou em 0,30 contra 0,18.1
O detalhe que muda a planilha vem logo depois. Os autores calculam que ignorar as indicações feitas pelo próprio indicado subestima entre 20% e 36% da diferença total de valor entre os dois grupos. É a parte da conta que ninguém faz, porque ela só aparece na segunda geração. Num experimento de campo, bastou lembrar ao cliente que ele mesmo havia entrado por indicação para a chance de ele indicar subir mais de 21%. Vale a régua de tamanho, porém. Em 20 empresas de setores variados, a taxa de indicação rastreada vai de 0,02% a 12,14% entre os indicados. Programa formal de indicação mexe com poucos por cento da base, não com um terço dela.
A conta existe e tem nome
Desde 2010 há um método publicado e testado em campo para separar duas notas do mesmo aluno, o valor do que ele compra e o valor do que ele traz. Foi proposto em serviços financeiros e varejo, nos Estados Unidos, e o ponto dele é que gerir a carteira pelas duas notas ao mesmo tempo rende mais que gerir por uma só.2 Traduzido para um estúdio de bairro, são duas colunas na mesma linha da ficha. Quanto essa aluna pagou nos últimos doze meses, e quantas alunas ativas hoje chegaram por causa dela. A segunda coluna quase nunca existe, e ela é a que responde a pergunta do título.
Três variáveis fazem a diferença aparecer, e a evidência mais completa sobre elas vem de um banco de varejo alemão, com dados de 2006 a 2008. Ali o cliente indicado valeu 16% a mais em seis anos, 25% quando se soma a diferença de custo de captação, e teve risco de saída cerca de 18% menor.3 A ressalva importa tanto quanto o número. A vantagem de margem daquele banco encolheu ano a ano e chegou a zero por volta do milésimo dia. A de retenção ficou. Se a sua conta assume margem melhor para sempre, ela está errada por construção.

O número do setor não existe
O que mais perto chega de fitness é uma rede eslovena de duas unidades, que perguntou aos novos associados por onde tinham chegado, ano a ano. Em 2022, 51,3% responderam que foi por um amigo, contra 19,6% em 2016.4 Antes de comemorar, leia a tabela inteira. No mesmo período, a categoria de quem já tinha sido associado antes despencou de 54% para 16,5%, e como as cinco opções somam 100%, boa parte da subida do amigo é redistribuição de uma base que mudou de composição. O que a tabela sustenta é isto, naquela rede, naquele ano, metade dos novos disse ter chegado por alguém conhecido. Em aulas de ioga on-line, uma única empresa, 5,1% de 54.349 clientes entraram por indicação rastreada pelo sistema, e esse número é piso, porque o link enviado por mensagem privada não é contado.1
No vácuo entram os números órfãos. Circula pela busca uma suposta pesquisa de consumidor de fitness com 67% de alunos que teriam entrado por recomendação pessoal. Abrindo a página que a busca aponta, ela não está lá, e a página é de uma empresa que vende aplicativo de fidelidade para academias.5 O maior levantamento do setor pergunta ao dono qual canal ele acha eficaz, e 46% citam boca a boca, atrás do Instagram, opinião de operador e não fatia de aluno medida, num relatório publicado pela própria fornecedora de software.6 A associação brasileira do setor recomenda a indicação sem apresentar um número sequer.7
Sobra o que dá para fazer na segunda-feira. Um campo de origem na ficha de matrícula, com o nome de quem indicou e não só a marca de um X, resolve a primeira coluna. A segunda pede paciência, porque só aparece meses depois, quando a aluna indicada indica de novo. Duas advertências fecham a conta. A origem declarada é resposta de gente lembrando, com todo o viés que isso carrega, e a própria ordem das opções na lista muda o que a pessoa marca. E o efeito não é uniforme, no banco alemão ele foi menor entre clientes de margem baixa e entre os acima de 55 anos, o que sugere olhar quem indica antes de premiar todo mundo igual.
1. Rachel Gershon e Zhenling Jiang, Journal of Marketing Research, 2025. Estudo revisado por pares sobre contágio de indicação, com base principal de 41,2 milhões de clientes de uma empresa de tecnologia móvel, mais 20 empresas de setores variados e uma plataforma de aulas de ioga on-line.
2. V. Kumar, J. Andrew Petersen e Robert P. Leone, Journal of Marketing, 2010. Propõe e testa em quatro experimentos de campo o método que calcula, lado a lado, o valor do que o cliente compra e o valor das indicações que ele gera.
3. Philipp Schmitt, Bernd Skiera e Christophe Van den Bulte, Journal of Marketing, 2011. Acompanha cerca de 10 mil clientes de um banco de varejo alemão por quase três anos, com dados de 2006 a 2008, comparando quem entrou por programa de indicação e quem entrou por outros meios.
4. V. Vuckovic, I. Cuk e S. Duric, Behavioral Sciences, 2023. Questionário respondido por 3.131 novos associados de uma rede eslovena de duas unidades entre 2016 e 2022, com cinco categorias fechadas de canal de entrada.
5. JeriCommerce, página de estatísticas de retenção em academias, 2026. Blog de empresa que vende aplicativo de fidelidade para negócios de fitness, usado aqui como exemplo de estatística sem metodologia, sem amostra e sem fonte declarada.
6. Mindbody, 2025 State of the Industry Report, 2025. Consulta a 1.421 tomadores de decisão de fitness e bem-estar nos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, publicada pela fornecedora de software de gestão do setor. O próprio relatório é inconsistente sobre qual canal ficou em segundo lugar.
7. ACAD Brasil, material de orientação sobre captação e retenção de alunos, sem data declarada na página. Trata a indicação como estratégia eficiente e não apresenta percentual, amostra nem fonte.
Imagens meramente ilustrativas, sem relação com as empresas, redes ou estudos citados nesta reportagem.
O aluguel não é onde a conta do estúdio se decide
A licença de música equivale a quase um quinto do que a mesma área custa de aluguel, e a escolha entre contratar em CLT ou em PJ move 9,5 pontos da receita bruta em imposto. Nenhuma das duas linhas aparece na conversa do setor. E a estrutura de custo do estúdio de Pilates, essa, ninguém publicou.

A licença de música em sonorização ambiental custa R$ 9,79 por metro quadrado por mês no grau médio de utilização, segundo a tabela do ECAD para academia de ginástica e escola de dança, em reais de 2024.7 Na média ponderada das dez cidades do Índice FipeZAP de locação comercial, o metro quadrado de sala comercial de até 200 m² foi anunciado por R$ 51,17 por mês em fevereiro de 2026.4 Uma coisa é cerca de 19% da outra. As duas contas estão em anos diferentes, e isso pede cautela na comparação, mas a ordem de grandeza sobrevive à ressalva. A linha que o setor trata como papelada do contador equivale a quase um quinto do aluguel da mesma área.
Essa é a matéria em uma frase. As linhas de custo que o dono de estúdio considera detalhe são, somadas, maiores que a folha, e duas delas têm alavanca desproporcional. Só que a matéria não pode ser escrita do jeito que o título de uma planilha promete, porque o número que ela precisaria ter não existe.
O achado é uma ausência
Antes de qualquer percentual, o resultado mais duro da apuração. Não localizamos, em fonte independente, uma estrutura de custo mensal de estúdio de Pilates. A busca percorreu cinco caminhos, o instituto de estatística brasileiro, o escritório estatístico europeu, a associação internacional do setor de fitness, um órgão público britânico de esporte e a literatura revisada por pares. Nenhum dos cinco publica a quebra de despesa de um estúdio.
O que existe é sempre uma de duas coisas. Ou um agregado vizinho, que junta o estúdio com academia, clube, quadra e estádio. Ou material de fornecedor. A Health & Fitness Association confirma, na parte aberta do relatório de benchmarking de 2025, que mede folha como fatia da receita, e não publica o número, que fica atrás do produto pago.9 O benchmark existe, ele só não é público. A literatura acadêmica, quando chega perto, custeia outra coisa. O trabalho publicado na Frontiers in Rehabilitation Sciences orçou um programa comunitário de exercício de doze semanas no Canadá em CAD 3.833, e ali não há aluguel, energia nem manutenção de aparelho, porque a sala era de um centro de recreação já existente.14 Mesmo a economia da saúde custeia o programa, não a instalação.
O vazio tem consequência prática. Quando não há dado independente, quem preenche o silêncio é quem tem interesse comercial. A página da Vedius, fornecedora de software de gestão, afirma margem de lucro entre 20% e 35%, podendo chegar a 60%, e atribui isso a levantamentos do setor sem identificar qual.13 Nenhum número dela entra aqui como cifra, ela aparece como exemplo do que circula. É assim que o setor forma a noção de quanto custa operar, repetindo estimativa de fornecedor até virar consenso sem fonte.
A tese se prova duas vezes, e em nenhuma delas o nome é Pilates
A saída honesta é reconstruir a estrutura por fora, com o agregado mais próximo, e dizer de que agregado se trata. A Pesquisa Anual de Serviços do IBGE traz a quebra linha a linha de atividades esportivas em 2023. No recorte de empresas com 20 ou mais pessoas ocupadas, os gastos com pessoal ficam em 28,52% da receita operacional líquida e as despesas operacionais em 40,28%, ou seja, 1,41 vez a folha.1 No recorte de atividades culturais, recreativas e esportivas com todas as empresas, cuja média de 4,4 pessoas por empresa é a escala de um estúdio, a distância aumenta, 23,11% contra 36,25%, 1,57 vez.
Na União Europeia o recorte de atividade é mais preciso. O Eurostat publica a linha de instalações de fitness na classificação NACE 93.13, e em 2022 eram 46.144 empresas com média de cinco pessoas cada.2 Ali, excluída a mercadoria para revenda, as compras externas de bens e serviços somam 2,04 vezes a despesa com pessoal. O número precisa de moldura na mesma frase, porque parte dessas compras é trabalho. O custo de trabalho por pessoa ocupada aparece em 11,53 mil euros e o custo por empregado em tempo integral em 27,35 mil euros, distância que só se explica se boa parte da mão de obra europeia do setor não for empregada, e sim contratada. Instrutor autônomo ou contratado como empresa não cai em despesa com pessoal, cai em compra de serviço.
| Linha de custo | % da receita operacional líquida | Fonte |
|---|---|---|
| Gastos com pessoal, com encargos | 28,52% | IBGE, PAS 2023 |
| Despesas operacionais, total | 40,28% | IBGE, PAS 2023 |
| Energia elétrica, gás, água e esgoto | 6,60% | IBGE, PAS 2023 |
| Aluguel de imóveis | 6,45% | IBGE, PAS 2023 |
| Serviços técnicos contratados de PJ | 5,72% | IBGE, PAS 2023 |
| Publicidade e propaganda | 3,54% | IBGE, PAS 2023 |
| Manutenção e reparação de bens | 2,79% | IBGE, PAS 2023 |
| Impostos e taxas de ocupação, IPTU e alvarás | 2,29% | IBGE, PAS 2023 |
| Direitos autorais, franquias e royalties | 0,50% | IBGE, PAS 2023 |
| Prêmios de seguros | 0,17% | IBGE, PAS 2023 |

A energia passou o aluguel
A primeira inversão que a tabela entrega é pequena e teimosa. Naquele recorte do IBGE, energia com gás, água e esgoto responde por 6,60% da receita e aluguel de imóveis por 6,45%.1 A diferença é estreita e vale como aviso de ordem, não como manchete. No recorte mais amplo, com escala de empresa pequena, a ordem se inverte, aluguel em 6,30% e energia em 3,32%. A leitura mais provável é que instalação grande carrega piscina, sauna e ar-condicionado central, e instalação pequena não, mas isso é interpretação, não afirmação da fonte.
O que não é interpretação é a direção do custo de energia em 2026. O custo médio da energia comercializada pelas distribuidoras no ambiente regulado passou de R$ 307,29 por MWh em 2025 para R$ 342,71 por MWh em 2026, fixado por despacho da ANEEL, alta de 11,5%.5 Esse parâmetro não é a tarifa que o estúdio paga, é um custo de suprimento que entra na formação dela, e serve para dizer a direção, nunca para calcular a conta de luz de ninguém. No mesmo período, o consumo da classe comercial no Brasil ficou parado, com alta de 0,3% em 2025, e as bandeiras tarifárias vermelhas ficaram acionadas de junho a novembro de 2025.6 Conta maior sobre o mesmo consumo, seis meses seguidos, é um custo real e datado que a conversa do setor não registra.
Um guia da Sport England sobre custo de energia em instalação de lazer comunitária dá a moldura estrutural. As utilidades representavam de 10% a 15% da despesa operacional dessas instalações em 2019, e a entidade projetava de 20% a 25% em 2023.3 A faixa alta é projeção, não medição, e o objeto é centro de lazer britânico com piscina, onde aquecimento de água domina o consumo. Nada disso se transporta para um estúdio sem piscina. O que se aproveita é a posição na ordem, energia como segunda linha depois de pessoal.
Guarde essa faixa de 1% a 3%, porque ela conversa mal com o outro número de margem que circula. A associação internacional do setor de fitness reporta margem EBITDA mediana de 23,6% em 2024, numa amostra de 175 empresas que representam mais de 17 mil instalações em 27 países, quase cem instalações por respondente, ou seja, rede grande.9 A distância entre 1% e 23,6% não é contradição entre fontes, é a prova de que margem do setor não é um número. É um intervalo que depende de escala e de modelo, e nenhum dos dois extremos descreve um estúdio de bairro.
O aluguel sobe para quem está procurando ponto
O aluguel é a linha que todo mundo cita, e a que tem preço unitário mais claro. O Índice FipeZAP de locação comercial de fevereiro de 2026, no recorte de salas e conjuntos de até 200 m², vai de R$ 34,14 por metro quadrado por mês em Porto Alegre a R$ 59,98 em São Paulo, com Rio de Janeiro em R$ 52,40 e Florianópolis em R$ 51,30.4 Entre a cidade mais cara e a mais barata há 1,76 vez de diferença, ou seja, a mesma sala custa quase o dobro dependendo de onde o estúdio está. Em doze meses, a média das dez cidades subiu 10,36%, contra IPCA de 3,81% e IGP-M de menos 2,67%, cerca de 2,7 vezes a inflação ao consumidor.
A ressalva vem da nota do próprio informe e muda a frase inteira. O índice mede preço pedido em anúncio de locação nova e não incorpora o reajuste dos contratos vigentes, que segue o índice contratado. Quem já está no imóvel não sofreu 10,36%, sofreu o reajuste do seu contrato. Esses 10,36% são o preço de quem vai renovar em condição de mercado ou trocar de ponto. E sala comercial não é a única tipologia usada por estúdio, que também ocupa casa, sobreloja e sala em edifício clínico, e essas o índice não cobre.
A alavanca está no contrato de trabalho
Agora a virada. A maior variação de custo apurada aqui não é imóvel nem energia, é tributo, e ela é acionada por uma decisão que o dono normalmente toma por outro motivo. A atividade de condicionamento físico, CNAE 9313-1/00, cai no Anexo III do Simples Nacional, com alíquota inicial de 6%, quando o fator R é igual ou maior que 28%, e no Anexo V, com alíquota inicial de 15,5%, quando o fator R fica abaixo disso.10 Fator R é a razão entre a folha dos últimos doze meses, incluindo salários, pró-labore e encargos, e a receita bruta do mesmo período. A diferença entre os dois anexos é de 9,5 pontos percentuais da receita bruta, e o gatilho é a proporção da folha.
Traduzindo, contratar instrutor como CLT ou como PJ não muda apenas a folha. Muda a alíquota de imposto sobre todo o faturamento, nos dois sentidos. Terceirizar para reduzir folha pode empurrar o fator R para baixo de 28% e mover a conta inteira para o anexo mais caro. É a linha com maior alavancagem deste levantamento e é, também, a que o setor mais trata como assunto do contador.
Duas ressalvas antes de levar isso ao contador. Alíquota inicial é a da primeira faixa de receita bruta do Simples e sobe com o faturamento, e a efetiva depende da parcela a deduzir, de modo que dizer que o estúdio paga 6% é errado sem essa moldura. E a fonte que descreve o enquadramento é um escritório de contabilidade que vende serviço para esse público, portanto parte interessada. As regras que ele descreve decorrem da Lei Complementar 123/2006, e é lá, e não na página do escritório, que a conta precisa ser conferida antes de qualquer decisão.
O que o dono calcula, linha por linha
Se a estrutura pronta não existe, o que fica é o inventário do que precisa ser calculado, com a fórmula de cada linha e o preço unitário quando ele tem fonte datada. Aluguel é o metro quadrado da cidade vezes a área.4 Energia é o consumo em kWh vezes a tarifa da distribuidora local do mês, com bandeira e tributos estaduais, e nenhum número nacional substitui essa conta. Música é a área vezes o valor por metro quadrado da tabela do ECAD, de 0,090 a 0,110 UDA por metro quadrado por mês conforme o grau de utilização, com a UDA em R$ 97,85.7 Para 120 m² no grau médio, isso dá R$ 1.174 por mês em reais de 2024.
Essa linha da música carrega três ressalvas que não podem sumir. A tabela que conseguimos abrir e conferir declara validade até dezembro de 2024, e o valor da UDA vigente em 2026 não foi localizado em fonte aberta, então a conta acima está em reais de 2024 e não é a conta de hoje. Existem descontos por região socioeconômica que reduzem o valor final. E o enquadramento de estúdio de Pilates como academia de ginástica é analogia, não texto, porque não encontramos ato do ECAD que nomeie o estúdio de Pilates. Estúdio que não executa música não é usuário. É um custo condicional, e a condição precisa ser dita junto com o número. O IBGE sustenta que a linha existe e é pequena sem ser nula, direitos autorais, franquias e royalties respondem por 0,50% da receita naquele recorte.1
Registro profissional é conta fixa e esquecível. No Conselho Regional de Educação Física de Santa Catarina, a anuidade de pessoa jurídica de 2026 é de R$ 1.569,68, com 50% de desconto para capital social de até R$ 200 mil, faixa típica do estúdio pequeno, o que leva a R$ 784,84, ou de R$ 65 a R$ 131 por mês conforme o desconto.8 A anuidade é devida por estabelecimento, não por empresa, de modo que duas unidades pagam duas vezes. O valor é de um conselho regional e outros têm tabelas próprias. Também não é a única obrigação de registro, porque alvará municipal, licença sanitária e, quando há fisioterapeuta, registro no conselho de fisioterapia entram na mesma prateleira e não foram apurados aqui.
Manutenção escapa do orçamento porque é recorrente e não tem preço público. O VOLL Pilates Group registra que a maioria dos fabricantes recomenda manutenção a cada 90 dias, com duas por ano aceitáveis conforme a marca e a frequência de uso.11 A Bilinkpilates, que fabrica e vende o componente, afirma que a maioria dos estúdios profissionais troca as molas do reformer a cada 12 a 18 meses.12 É recomendação de fabricante, vale como piso de cautela e não como vida útil apurada. Nenhuma das duas informa valor em reais, e nenhum orçamento de prestador entrou nesta apuração. Fica documentada a natureza da linha, obrigação técnica recorrente de periodicidade trimestral a semestral, que no agregado do IBGE aparece em 2,79% da receita.1
Nenhuma dessas contas é difícil. Todas exigem o número da própria cidade, da própria distribuidora e do próprio contrato, e é por isso que a estrutura pronta não existe em formato de percentual único. A consequência é direta. Enquanto o dono discute aluguel, o imposto de todo o seu faturamento está sendo definido pela proporção da folha, e a licença de música, que ele nem sabe se deve, custa por metro quadrado quase um quinto do que ele paga de sala. As contas pequenas não são pequenas. Elas só estão fora da conversa.
1. IBGE, Pesquisa Anual de Serviços 2023, tabelas de atividades esportivas e de atividades culturais, recreativas e esportivas.
Origem de toda a quebra de despesa por linha citada como setor esportivo brasileiro, com percentuais recalculados a partir dos valores absolutos em mil reais de 2023.
2. Eurostat, Structural Business Statistics, atividade NACE 93.13, instalações de fitness, União Europeia, ano-base 2022.
Fonte do porte médio de cinco pessoas por empresa e da relação entre compras externas de bens e serviços e despesa com pessoal no fitness europeu.
3. Sport England, guia sobre o impacto do custo mais alto de energia em instalações de lazer comunitárias, Reino Unido.
Origem da faixa de 10% a 15% das utilidades na despesa em 2019, da projeção de 20% a 25% para 2023 e da faixa de margem de 1% a 3% para operadores de lazer.
4. Fipe e Grupo OLX, Índice FipeZAP de Venda e Locação Comercial, informe de fevereiro de 2026.
Preço pedido de locação de salas e conjuntos comerciais de até 200 m² em dez cidades brasileiras, com a variação de doze meses e a nota que separa anúncio novo de contrato vigente.
5. ANEEL, Despacho nº 3.050, de 2025, que fixa o custo médio da energia no ambiente de contratação regulada para 2026.
Fonte dos valores de R$ 307,29 e R$ 342,71 por MWh e da alta de 11,5%, parâmetro regulatório de suprimento e não tarifa ao consumidor final.
6. Empresa de Pesquisa Energética, Anuário Estatístico de Energia Elétrica, edições com ano-base 2024 e 2025.
Consumo de eletricidade da classe comercial brasileira e período de acionamento das bandeiras tarifárias vermelhas em 2025.
7. ECAD, tabela de preços das licenças para utilizações musicais, item de sonorização ambiental em academias de ginástica e escolas de dança, edição com validade declarada até dezembro de 2024.
Fonte do critério de 0,090 a 0,110 UDA por metro quadrado por mês e do valor da UDA em R$ 97,85, publicada pela entidade que cobra a licença.
8. Conselho Regional de Educação Física da 3ª Região, Santa Catarina, anuidade de pessoa jurídica de 2026, com base na Resolução 285/2025.
Valor integral, tabela de descontos por capital social e regra de cobrança por estabelecimento, publicada pela entidade que cobra a anuidade.
9. Health & Fitness Association, relatório de benchmarking do setor de fitness de 2025, com dados referentes a 2024.
Margem EBITDA mediana e desenho da amostra, de associação que representa operadores e vende o relatório completo, com a quebra de despesa por linha fora da parte aberta.
10. Contefy, guia de contabilidade para academias, escritório de contabilidade digital.
Descrição do enquadramento no Simples Nacional e do fator R, fonte com interesse comercial direto no público descrito, cujas regras precisam de checagem na Lei Complementar 123/2006.
11. VOLL Pilates Group, publicação sobre manutenção preventiva e corretiva de equipamento de Pilates, 2022.
Periodicidade recomendada de manutenção e itens de inspeção, de grupo com interesse comercial no mercado de Pilates e sem valor em reais.
12. Bilinkpilates, guia sobre molas de reformer, 2025.
Ciclo declarado de troca de molas, publicado por fabricante e vendedor do próprio componente, sem amostra, método ou preço.
13. Vedius, publicação sobre faturamento de estúdio de Pilates, fornecedor de software de gestão.
Entra como contra-exemplo de fonte com interesse comercial direto, com números de margem e faturamento atribuídos a levantamentos não identificados e nenhum custo mensal.
14. Aravind e outros, análise de custo e estudo qualitativo sobre programa comunitário de exercício após acidente vascular cerebral, Frontiers in Rehabilitation Sciences, 2023.
Orçamento de um programa de doze semanas no Canadá, usado aqui como demonstração de que a literatura custeia o programa e não a instalação.
Imagens de arquivo, sem identificação de marca ou de estabelecimento.
O que os ensaios de Pilates medem quando falam de coração
A pressão arterial se move, e às vezes se move bastante. O que não se moveu, em nenhum estudo localizado, foi o desfecho que a leitora imagina quando ouve a palavra cardiovascular.

Sessenta mulheres hipertensas, dezesseis semanas de Pilates de solo, três grupos sorteados e um desfecho medido do jeito mais duro que existe fora do consultório, a pressão acompanhada por vinte e quatro horas seguidas. É o melhor desenho de estudo que a literatura de Pilates oferece para a pergunta do coração, e o resultado entre os grupos foi nulo. Nenhuma diferença estatisticamente significativa. Ainda assim, o bloco de impacto do próprio resumo afirma que dezesseis semanas de treino reduziram a pressão ambulatorial e que uma redução dessas pode diminuir o risco de doença cardiovascular.4 O estudo não mediu risco. Não mediu evento nenhum.
Vale separar duas coisas que costumam viajar juntas. O efeito agregado do Pilates sobre pressão é modesto. A revisão que juntou onze estudos em pessoas com hipertensão achou queda de 4,76 mmHg na sistólica e de 3,43 mmHg na diastólica contra os grupos de comparação, com quatro ensaios sorteados e sete estudos comparativos na conta.1 Modesto, e condicionado, porque quando a mesma revisão compara pessoas com hipertensão e pessoas com pressão normal os resultados deixam de ser significativos. Os próprios autores fecham dizendo que o método é seguro e pode entrar na reabilitação, e que pode não oferecer resultado superior nem aderência melhor que outras modalidades.
O pequeno é o agregado, não o efeito
Quem parar por aí escreve a frase errada. Ensaios individuais recentes mostram quedas de dois dígitos. Um estudo sorteado de treze semanas com mulheres hipertensas em tratamento com remédio achou 10,3 mmHg a menos na sistólica de vinte e quatro horas, com interação significativa em todos os parâmetros de pressão ambulatorial.5 Outro, com pessoas de 60 a 75 anos e hipertensão em estágio 1, achou 13,47 mmHg de queda na sistólica dentro do grupo que treinou.6 A diferença é o tamanho da amostra. São 28 e 34 pessoas. O agregado é o que sobra quando os estudos são somados, e é ele que fica abaixo de 5 mmHg. O efeito grande existe, ele só não sobrevive à média.
O segundo estudo carrega uma discrepância que merece leitura atenta. O resumo afirma que o grupo de Pilates teve pressão arterial significativamente reduzida, e a discussão diz que o treino baixou a sistólica e a diastólica. A tabela de resultados mostra a diastólica com p de 0,628 no teste de tempo e todos os demais valores acima de 0,3, ou seja, não significativa em nenhum dos três testes. Só a sistólica sustenta a afirmação. E há um descompasso de número, o texto fala em cerca de 16 mmHg de queda enquanto a tabela registra 13,47 mmHg dentro do grupo. Os 16 aparecem se a conta for outra, a diferença entre os dois grupos no fim do estudo.6 É assim que um efeito real em um número vira, na escrita, um efeito genérico em pressão arterial.

A régua emprestada
Existe uma referência conhecida que liga pressão a risco. Para cada 5 mmHg a menos na sistólica, o risco de evento cardiovascular maior cai cerca de 10%.9 A tentação de encaixar o Pilates nessa régua é enorme, e ela não é lícita, porque a régua foi construída com medicamento anti-hipertensivo em 344.716 pessoas de 48 ensaios sorteados, com acompanhamento mediano de 4,15 anos. Uma queda obtida com doze semanas de aula em trinta pessoas não entra nessa conta. A régua serve para dar escala e nada mais, e a escala diz que o efeito agregado do Pilates fica pouco abaixo do degrau que a cardiologia usa como referência de conversa.
A meta-análise em rede que comparou modalidades em 31 ensaios e 1.345 participantes coloca o Pilates num lugar desconfortável. Ele aparece com efeito na diastólica de vinte e quatro horas, menos 4,18 mmHg, e não aparece na sistólica de vinte e quatro horas, que é justamente a que mais pesa em risco na faixa de idade típica das aulas.2 Em paralelo, outro trabalho de 2026 com adultos sedentários colocou o Pilates em primeiro lugar num ordenamento de probabilidade para melhora da sistólica, com 79,6%.3 Esse número vai circular, e ele não é tamanho de efeito. É a probabilidade de uma modalidade liderar um ranking, e um ranking pode ser liderado por quem tem poucos estudos e estimativa imprecisa. O resumo não informa nenhum valor em mmHg para o Pilates.
O que ninguém mediu
Fica a linha que sustenta tudo. Não localizamos nenhum ensaio de Pilates que tenha medido infarto, acidente vascular cerebral, internação ou morte. A literatura mede pressão, rigidez de artéria, óxido nítrico e marcadores de inflamação, todos eles intermediários, e é neles que aparecem os 5 mmHg de queda na sistólica braquial de jovens obesas com pressão elevada, um número que não pertence à aluna de 55 anos que já toma remédio.8 Há ainda estudos que confundem a leitura por desenho, como o que treinou dois grupos sem manter ninguém sem exercício e mesmo assim anunciou redução no título, e no qual a variabilidade da pressão aumentou, o que não é sinal favorável em cardiologia.7 A frase honesta para levar ao estúdio é curta. O Pilates move pressão em milímetros de mercúrio, com tamanho que depende de quem treina e de como se mede, e ninguém testou se isso move infarto.
1. Journal of Human Hypertension, The efficacy of Pilates method in patients with hypertension, systematic review and meta-analysis, 2024.
Revisão com meta-análise de 11 estudos em pessoas com hipertensão, fonte do efeito agregado de 4,76 mmHg na sistólica e 3,43 mmHg na diastólica.
2. British Journal of Sports Medicine, Effects of different exercise training modalities on 24-hour ambulatory blood pressure in adults with hypertension, a network meta-analysis of randomised controlled trials, 2026.
Comparação em rede de 31 ensaios e 1.345 participantes, com pressão de 24 horas como desfecho, na qual o Pilates aparece na diastólica e não na sistólica.
3. Endocrine, Effects of different training protocols on physiological indicators and cardiovascular risk factors of sedentary adults, a systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials, 2026.
Rede de 47 estudos e 2.355 adultos sedentários, origem do ordenamento de probabilidade de 79,6% para o Pilates na sistólica, sem valor em mmHg no resumo.
4. Physical Therapy, The Effect of Mat Pilates Training Combined With Aerobic Exercise Versus Mat Pilates Training Alone on Blood Pressure in Women With Hypertension, A Randomized Controlled Trial, 2022.
Ensaio sorteado de três braços com 60 mulheres hipertensas e pressão ambulatorial de 24 horas como desfecho primário, sem diferença significativa entre grupos.
5. Journal of Hypertension, Pilates training is associated with reduced ambulatory blood pressure and enhanced autonomic reflex responsiveness in women with hypertension, 2026.
Ensaio sorteado de 13 semanas com 28 mulheres hipertensas, origem da queda de 10,3 mmHg na sistólica de 24 horas.
6. Sports (Basel), Effect of Mat Pilates Training on Blood Pressure, Inflammatory, and Oxidative Profiles in Hypertensive Elderly, 2024.
Ensaio de 12 semanas com 34 pessoas de 60 a 75 anos, única fonte lida em texto completo, origem da queda de 13,47 mmHg na sistólica e da discrepância entre resumo e tabela na diastólica.
7. Clinical and Experimental Hypertension, Mat Pilates training reduces blood pressure in both well-controlled hypertensive and normotensive postmenopausal women, a controlled clinical trial study, 2022.
Estudo com 47 mulheres na pós-menopausa sem grupo sem exercício, no qual a variabilidade da pressão aumentou nos dois grupos.
8. American Journal of Hypertension, The Effects of Mat Pilates Training on Vascular Function and Body Fatness in Obese Young Women With Elevated Blood Pressure, 2020.
Ensaio sorteado de 12 semanas com 28 jovens obesas com pressão elevada, com marcadores vasculares intermediários e 5 mmHg de queda na sistólica braquial.
9. The Lancet, Pharmacological blood pressure lowering for primary and secondary prevention of cardiovascular disease across different levels of blood pressure, an individual participant-level data meta-analysis, 2021.
Meta-análise de dados individuais de 344.716 participantes de 48 ensaios de medicamento, origem da relação entre 5 mmHg e cerca de 10% de risco, que não é transportável para exercício.
Imagens de banco de imagens licenciado, com crédito a definir na diagramação.
O número que 34 de 41 ensaios de Pilates deixaram de fora
A revista baixou o texto integral de 41 ensaios randomizados de Pilates e leu o método de cada um atrás de uma frase só, quantas pessoas havia na sala para cada professor. A maioria não diz. Nenhum testou. E as duas pesquisas que mais perto chegam da pergunta apontam para o lado contrário do que o bom senso do estúdio prevê.

A pergunta cabe numa linha. Quantos alunos havia por professor. Qualquer pessoa que já deu ou pagou uma aula de Pilates sabe que isso muda a aula, e é justamente por parecer óbvio que quase ninguém escreveu o número. Esta revista foi conferir. Consultamos a base pública Europe PMC atrás de ensaios randomizados com a palavra Pilates no título, publicados entre 2018 e 2026, com texto integral de acesso aberto. Vieram 41. Baixamos os 41 textos completos e lemos o método de cada um procurando uma frase que dissesse quantas pessoas havia por sessão sob um mesmo profissional, ou que declarasse entrega individual. Sete disseram. Trinta e quatro, 83% da amostra, não dizem nada que permita saber. E nenhum dos 41, nem os sete que relataram, comparou tamanhos de turma ou ajustou o resultado por essa variável.1
O critério foi estreito de propósito. Não contamos tamanho de amostra por braço, que é outra coisa e é a maior fonte de falso positivo em busca automática. Não contamos “em grupo” sem número, nem “supervisionado por fisioterapeuta” sem número. A amostra é só de acesso aberto, então ensaios fechados podem relatar mais ou menos e não temos como saber, e o filtro por título perde ensaios em que o Pilates é um braço entre vários. Alguns dos 41 são estudos de laboratório com desenho intrinsecamente individual, e estão contados entre os 34 porque de fato não declaram o formato. Quem quiser ser conservador pode ler o resultado como mais de 80% em vez do número cravado.
O que chama atenção não é a omissão isolada. É o contraste dentro do mesmo parágrafo de método. Os ensaios descrevem quem conduziu a aula com uma precisão quase cerimonial. Um informa que todas as sessões foram supervisionadas por um instrutor de Pilates certificado com 15 anos de experiência profissional. Outro, que a aula foi conduzida por uma fisioterapeuta formada por um instituto australiano de Pilates e fisioterapia. Um terceiro registra que o profissional tinha mais de dez anos de prática e que as sessões aconteceram em grupo, mas cada exercício foi executado individualmente. Em nenhum dos três aparece quantas pessoas esse profissional estava olhando ao mesmo tempo.
A supervisão tem efeito medido, a densidade não
Vale separar duas perguntas que costumam viajar juntas. A primeira é se ter alguém olhando muda algo, e essa tem resposta. Uma revisão sistemática com metanálise reuniu 34 estudos e 2.830 pessoas de 60 anos ou mais que fizeram exercício supervisionado ou não supervisionado. O comparecimento foi igual nos dois braços, 81%, e não houve evento adverso sério. A favor do supervisionado apareceram força de extensão de joelho, sentar e levantar, velocidade de marcha, massa magra e qualidade de vida, com tamanhos de efeito pequenos. Só a força de extensão de joelho sobreviveu à análise de sensibilidade.2 Ou seja, o efeito de ter um profissional na sala existe, é pequeno e é frágil.
Um ensaio de 2025 mostra o mesmo mecanismo com mais nitidez, ainda que fora do Pilates. Setenta e nove adultos treinados foram sorteados para dez semanas de treino resistido em três formatos, com treinador presente, guiados por aplicativo ou por PDF autoguiado. A aderência foi de 88,2% no braço presencial, 81,2% no aplicativo e 52,2% no PDF. Massa corporal e massa livre de gordura subiram só no braço com treinador. Todos melhoraram o agachamento, e o braço presencial melhorou significativamente mais que os outros dois. O artigo descreve o que o treinador fazia, monitorava aderência, dava encorajamento, orientação imediata de progressão de carga e retorno verbal sobre a execução.3 O que ele não diz, em nenhuma linha, é quantas pessoas esse treinador atendia por vez. O ensaio desenhado justamente para medir o valor da supervisão presencial não relata a densidade da supervisão presencial.
A segunda pergunta é a que dá título à discussão de estúdio, e é onde a evidência acaba. Se o valor da supervisão está no retorno imediato sobre a execução, então o número de alunos por professor é o racionamento desse retorno, porque atenção não se divide sem custo. Isso é raciocínio de mecanismo, e mecanismo plausível não é achado. Não existe hoje, em Pilates ou fora dele, um ensaio comparando turma de seis com turma de doze. A hipótese continua sendo hipótese.
O buraco tem três camadas e todas são mensuráveis
A ausência não é impressão. Ela aparece em escalas diferentes, em três corpos de literatura independentes, e em dois deles quem contou o silêncio foram os próprios pesquisadores.
| Onde | O que se sabe | O que falta |
|---|---|---|
| Ensaios de Pilates, 2018 a 2026, acesso aberto | 7 de 41 relatam quantas pessoas por professor | 34 de 41 não relatam, e nenhum dos 41 testou a variável |
| Exercício para prevenção de quedas em idosos | 146 braços de intervenção descritos em detalhe | 65 deles, 45%, não relatam a razão participante por instrutor |
| Maior revisão de exercício para lombalgia crônica | 163 braços individuais e 162 em grupo, quase equilibrados | a comparação entre os dois formatos nunca foi rodada |
A camada do meio vem do campo vizinho e é a mais bem documentada. Um estudo descritivo analisou os 108 ensaios randomizados incluídos numa revisão de exercício para prevenção de quedas, 146 braços de intervenção e 23.407 participantes em 25 países. A frase dos autores é direta, a razão participante por instrutor não foi claramente relatada em 65 braços, 45% do total. Entre os 82 que relataram, 29 não tinham supervisão, 15 eram um para um e 8 tinham mais de 10 participantes por instrutor. A recomendação que fecha o artigo é que diretrizes consistentes de relato sobre nível de supervisão sejam promovidas, e há uma observação de mecanismo escondida ali, a maioria das intervenções em grupo com mais de 10 participantes por instrutor não era individualizada.4 Nada disso é Pilates, e nenhum desses números pode ser transferido para o Pilates. O que a fonte prova é que a lacuna é estrutural e que ela já foi medida por gente de dentro.

Os dados estavam na mesa e a pergunta não foi feita
A terceira camada é a mais desconfortável. A maior revisão sistemática de exercício para lombalgia crônica reuniu 249 ensaios randomizados, com idade média de 43,7 anos e 59% de mulheres. Ao caracterizar os estudos incluídos, ela classificou o formato de entrega e chegou a uma divisão quase perfeita, 38% dos grupos de exercício em supervisão individual, 163 no total, e 38% em supervisão de grupo, 162 no total. A revisão confirmou que exercício supera nenhum tratamento para dor, com certeza moderada e diferença clinicamente importante pelo limiar dos próprios autores. As análises de subgrupo cobriram duração da dor, radiculopatia, fonte da população e tipo de comparador. Nenhuma delas foi por formato de entrega.5
Isso não é acusação. Comparação de subgrupo não randomizada é confundida por indicação, quem foi para atendimento individual costuma ser diferente de quem foi para a turma, e há boa razão metodológica para não rodar esse cruzamento de forma exploratória. A frase honesta é outra e ainda assim pesa, os dados para começar a responder estavam na mesa, praticamente balanceados, e a pergunta não foi feita.
No próprio Pilates a peça canônica se comporta igual. A revisão sistemática de Pilates para lombalgia que fixou a agenda do campo é de 2015, recuperou 126 ensaios, incluiu 10 e somou 510 participantes. Ela encontrou evidência de baixa qualidade de redução de dor contra intervenção mínima e nenhuma diferença significativa contra outros exercícios, e concluiu que não havia evidência de alta qualidade para nenhuma das comparações investigadas. Uma busca dirigida no texto dessa revisão por tamanho de turma, razão instrutor por participante ou entrega individual contra grupo não retorna nenhuma frase. O método aparece descrito pelos seis princípios, centralização, concentração, controle, precisão, fluidez e respiração, e pela adaptação ao paciente.6 A revisão tem 11 anos e não retrata o estado atual da evidência, que cresceu muito desde então. O valor dela aqui é de origem, foi ela que desenhou a lista de perguntas do campo, e a densidade ficou fora da lista.
As duas fontes mais próximas puxam contra
Aqui a matéria precisa contrariar a própria intuição que a motivou. A evidência mais forte que existe perto dessa pergunta não sustenta a tese do estúdio, ela empurra na direção oposta.
A primeira é uma revisão Cochrane de 2024 sobre treino de músculos do assoalho pélvico para incontinência urinária em mulheres, 63 ensaios e 4.920 participantes. Um dos subgrupos compara supervisão individual com supervisão em grupo. O resultado, com certeza moderada, é que a supervisão individual provavelmente resulta em pouca ou nenhuma diferença de qualidade de vida, com diferença média padronizada de -0,18, intervalo de confiança de 95% entre -0,35 e -0,01, heterogeneidade zero, 5 ensaios e 544 mulheres. Nas conclusões, os autores escrevem que o treino pode ser supervisionado individualmente ou em grupo porque isso provavelmente faz pouca ou nenhuma diferença nesse desfecho.7 Três ressalvas andam junto e nenhuma anula o achado. Treino de assoalho pélvico não é Pilates, é contração repetida de um grupo muscular sem carga externa, sem aparelho e sem repertório complexo, ou seja, é o caso em que a correção visual do professor deveria importar menos. A comparação é individual contra grupo, não é grupo de seis contra grupo de doze, então nem essa revisão testa densidade, ela testa a presença de outras pessoas na sala. E o intervalo de confiança não cruza o zero, existe formalmente uma diferença pequena a favor do individual, que os próprios autores interpretam como pouca ou nenhuma diferença clínica. Escrever que não faz diferença seria simplificação.
A segunda vem de fora da saúde e é a única literatura localizada nesta apuração que mediu tamanho de turma contra dose de exercício. Um estudo transversal observou 284 aulas de educação física em dez escolas de Xangai, com atividade física medida por acelerometria e o contexto da aula registrado por instrumento padronizado, comparando turmas de até 30 alunos com turmas acima disso. Na comparação bruta, no ensino fundamental, as turmas menores passaram 42,3% do tempo de aula em atividade moderada a vigorosa contra 39,2% nas maiores, com p = 0,035 e eta quadrado de 0,032, um efeito pequeno. No ensino médio não houve diferença. Na regressão ajustada o efeito não se sustentou, p = 0,064 no fundamental. O que sobreviveu ao ajuste foi o local da aula e o conteúdo da aula, não o tamanho da turma.8 É transversal, é escola, é criança e não é Pilates. Ainda assim, é o teste mais direto que existe, e ele encontrou um sinal fraco que não se confirmou.
Os sete que escreveram, e o que custou
A parte fácil dessa história é que relatar é barato. Uma frase resolve, e sete ensaios provam.
O mais rigoroso do lote é um ensaio brasileiro publicado em 2024, com 145 pessoas de 18 a 50 anos com lombalgia crônica, seguimento de seis meses e análise econômica embutida. O método diz, em uma linha, que eram duas sessões por semana de 50 minutos, com no máximo quatro participantes por sessão e de sete a dez exercícios. O braço de Pilates saiu à frente em dor, incapacidade e qualidade de vida logo após a intervenção, e aos seis meses só a qualidade de vida seguiu significativa, com os autores registrando que as diferenças de dor e incapacidade não foram consideradas clinicamente relevantes.9 Na discussão, eles levantam a hipótese de que a interação social entre participantes em grupos pequenos possa explicar o ganho de qualidade de vida. Repare no que aconteceu ali. A densidade aparece como explicação possível do resultado sem nunca ter sido desenhada como variável, e é assim que ela circula no campo inteiro, como palpite de discussão.
Um ensaio grego de 2025 sobre suplementação proteica durante treino de Pilates é a formulação mais completa que encontramos, porque amarra tudo numa frase só. Participantes treinaram por dez semanas, ao menos duas vezes por semana, em grupos de até cinco, supervisionados por um instrutor com média de cinco anos de experiência e certificação declarada, usando reformer e cadillac.10 Número de alunos, presença do instrutor, experiência e credencial, tudo na mesma linha. O objeto do ensaio é proteína, e a turma de até cinco nunca é analisada.
Os dois que declararam turmas grandes são os mais reveladores, por causa do motivo declarado. Num programa on-line de Pilates de 2022, os pesquisadores dividiram o grupo de exercício em dois subgrupos de 10 e 11 pessoas, e a razão que escreveram no artigo foi verificar se os exercícios estavam sendo feitos corretamente.11 Um pesquisador afirmando, sem medir, que acima de certo número a correção fica inviável, e adotando 10 ou 11 como teto operacional numa tela. Já num ensaio com gestantes de 2021, grupos de 9 a 10 mulheres treinaram na presença de um profissional, e o motivo declarado do agrupamento foi garantir espaço adequado para o exercício.12 Mesmo número, razões opostas, nenhuma das duas verificada.
O ensaio de Pilates que mais perto chega da pergunta também não a responde. Um estudo com 50 pessoas com esclerose múltipla comparou treino de estabilização baseado em Pilates supervisionado em clínica com a versão feita em casa, e o resumo publicado registra que o grupo supervisionado foi majoritariamente superior ao grupo domiciliar em força, controle postural e fadiga.13 Não tivemos acesso ao texto integral, então este ensaio entra aqui como sinal e não como medida. Se ele diz quantas pessoas havia por fisioterapeuta, essa informação não está na parte pública. E a comparação que ele faz mistura pelo menos três coisas ao mesmo tempo, presença de profissional, ambiente e equipamento.
Sobra o que isso significa para quem decide. Um estúdio que fecha turma em quatro e um que fecha em doze estão tomando a mesma decisão sem nenhuma evidência a favor ou contra, e quem vender essa escolha como respaldada por ciência está estimando. A variável é barata de relatar, cabe numa frase de método, tem precedente publicado e continua sistematicamente ausente. A conta ainda está sendo escrita.
1. PILATES ARCHIVE, apuração própria, 2026. Contagem feita sobre 41 ensaios randomizados com a palavra Pilates no título, de acesso aberto e com texto integral disponível, publicados entre 2018 e 2026 e localizados na base Europe PMC. Os 41 textos integrais foram baixados e o método de cada um lido em busca de declaração de quantas pessoas havia por sessão sob um mesmo profissional ou de entrega individual.
2. Gómez-Redondo, Valenzuela, Morales, Ara e Mañas, Sports Medicine, 2024. Revisão sistemática com metanálise de ensaios randomizados que compararam exercício supervisionado com não supervisionado em pessoas de 60 anos ou mais, 34 estudos e 2.830 participantes, com busca até setembro de 2022.
3. Gavanda, Held, Schrey, Oberwetter, Lazzaro, Pergelt e Geisler, Journal of Strength and Conditioning Research, 2025. Ensaio randomizado de três braços com 79 adultos treinados, dez semanas de treino resistido comparando supervisão presencial, orientação por aplicativo e programa autoguiado em PDF.
4. Ng, Fairhall, Wallbank, Tiedemann, Michaleff e Sherrington, BMJ Open Sport & Exercise Medicine, 2019. Estudo descritivo dos 108 ensaios randomizados incluídos numa revisão de exercício para prevenção de quedas em idosos da comunidade, 146 braços de intervenção, 23.407 participantes e 25 países.
5. Hayden, Ellis, Ogilvie, Malmivaara e van Tulder, Cochrane Database of Systematic Reviews, 2021. Revisão sistemática com metanálise de exercício para lombalgia crônica, 249 ensaios randomizados, com classificação do formato de entrega e sem análise estratificada por formato.
6. Yamato, Maher, Saragiotto, Hancock, Ostelo, Cabral, Menezes Costa e Costa, Cochrane Database of Systematic Reviews, 2015. Revisão sistemática de Pilates para lombalgia, 126 ensaios recuperados, 10 incluídos e 510 participantes somados, com buscas até 2014 atualizadas em 2015.
7. Hay-Smith, Starzec-Proserpio, Moller, Aldabe, Cacciari, Pitangui, Vesentini, Woodley, Dumoulin, Frawley, Jorge, Morin, Wallace e Weatherall, Cochrane Database of Systematic Reviews, 2024. Revisão sistemática de abordagens de treino de músculos do assoalho pélvico para incontinência urinária em mulheres, 63 ensaios e 4.920 participantes, com subgrupo comparando supervisão individual e supervisão em grupo.
8. Zhou, Wang, Chen e Wang, International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, 2025. Estudo transversal observacional de 284 aulas de educação física em dez escolas de Xangai, com atividade física medida por acelerometria e contexto de aula registrado por instrumento padronizado.
9. Tottoli, Ben, da Silva, Bosmans, van Tulder e Carregaro, Clinical Rehabilitation, 2024. Ensaio randomizado com 145 participantes com lombalgia crônica não específica, comparando Pilates em clínica com exercício domiciliar, seguimento de seis meses e avaliação econômica. O artigo traz uma contradição interna sobre a duração da intervenção, seis semanas no resumo e oito no corpo do texto.
10. Karpouzi, Kypraiou, Mougios e Petridou, Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2025. Ensaio randomizado de suplementação proteica durante dez semanas de treino de Pilates em quatro academias comerciais, com composição corporal, resistência muscular e flexibilidade como desfechos.
11. Suner-Keklik, Numanoglu-Akbas, Cobanoglu, Kafa e Guzel, Irish Journal of Medical Science, 2022. Ensaio randomizado de programa de Pilates on-line de seis semanas, com o grupo de exercício dividido em dois subgrupos de 10 e 11 participantes por razão declarada de verificação da execução.
12. Ghandali, Iravani, Habibi e Cheraghian, BMC Pregnancy and Childbirth, 2021. Ensaio randomizado de programa de Pilates na gestação com efeito sobre desfechos de parto, com sessões conduzidas em grupos de 9 a 10 gestantes na presença de um profissional.
13. Güngör, Tarakci, Özdemir-Acar e Soysal, Multiple Sclerosis, 2022. Ensaio randomizado com 50 pessoas com esclerose múltipla comparando treino de estabilização central baseado em Pilates supervisionado em clínica com a versão domiciliar. Fonte consultada apenas pelo resumo público, sem acesso ao texto integral e sem verificação do método.
Imagens meramente ilustrativas, sem relação com os estudos, instituições ou profissionais citados nesta reportagem.
Ninguém perguntou se é pela atenção que elas voltam
A aula produz uma janela de atenção sem interrupção, e existe pesquisa mostrando isso. O que não existe é uma única medição perguntando se é por causa dessa janela que a aluna renova a mensalidade.

Um curso de movimento de quinze semanas aumenta os escores de atenção plena de quem faz.1 O achado é de 2010, com 166 universitários dos Estados Unidos matriculados em Pilates, Taiji quan ou GYROKINESIS, e o ganho de atenção apareceu associado a melhor qualidade de sono no fim do semestre. Não é um estudo sobre telefone, e o desenho não separa o Pilates das outras duas modalidades. Ainda assim, é a base mais firme que existe para uma frase que o setor repete sem nunca apurar, a de que a aula faz alguma coisa com a atenção de quem está ali dentro.
A hipótese que nasce daí é curta e continua sem teste. O que a aula entrega não é só carga, é um bloco de tempo em que a atenção fica ocupada por inteiro, porque a correção da professora e a sequência do aparelho não deixam sobra. A pesquisa que mais se aproxima disso é italiana e mediu, em 49 pessoas ao todo entre 50 e 65 anos, uma melhora no fator de tempo livre, que os autores descrevem como capacidade maior de aproveitar o tempo livre tirando a cabeça dos compromissos.2 Amostra pequena, sem sorteio de grupo, e por isso o dado serve de indício e não de prova.
A pergunta que ninguém fez
Ninguém perguntou às praticantes se é por isso que elas voltam. O levantamento brasileiro mais próximo ouviu 52 praticantes de Pilates com uma escala validada de motivos, e o topo declarado foi Saúde, seguido de Prazer.3 A escala tem uma dimensão de controle do estresse, e ela não ficou no topo. Só que o detalhe mais revelador não é o resultado, é o instrumento. A escala brasileira padrão de motivos para praticar exercício não traz nenhuma dimensão de desconexão, de silêncio ou de refúgio de atenção. Quando a resposta não está entre as opções, ela não tem como aparecer no gráfico.
Fora do Brasil, o dado mais robusto sobre motivo declarado vem de 830 usuários de academia na Eslovênia, e ele anda na direção contrária.4 Controle de estresse pontuou mais alto em quem treina sozinho do que em quem faz aula em grupo ou paga personal. Afiliação, o motivo de estar perto de gente, pontuou mais alto justamente na aula em grupo. O estudo não examinou Pilates nem nenhuma modalidade de mente e corpo, então isso é exercício em geral na Europa e não achado da casa. Mesmo assim é a evidência disponível, e ela aponta que quem procura desligar tende a procurar sozinha.
O discurso da indústria puxa para o mesmo lado oposto. Duas plataformas de gestão de estúdio, a ABC Fitness Solutions e a Mariana Tek, publicam relatórios que narram o estúdio como espaço de encontro e pertencimento, e uma delas afirma que interação social é a razão principal de entrar e continuar.56 Nenhuma das duas divulga metodologia, tamanho de amostra, data de campo nem redação de pergunta, e as duas vendem software para o setor que descrevem, o que torna aquilo afirmação de mercado e não pesquisa. A leitura oficial do setor de bem estar para 2026 fala em reação contra a autometrificação, e não em espaço sem telefone.7

O telefone é o pedaço mais frágil
A parte mais popular dessa conversa é a mais insegura. Uma meta-análise de 22 estudos encontrou efeito negativo do uso e da mera presença do smartphone sobre desempenho cognitivo, e uma replicação direta pré-registrada do experimento original não encontrou diferença nenhuma entre deixar o aparelho na mesa, no bolso ou fora da sala.89 As duas coisas estão publicadas, e é exatamente isso que se sabe hoje. Quem repete em sala que só o telefone estar ali já rouba a atenção está escolhendo um lado de uma literatura dividida, e nenhum desses estudos foi feito dentro de um estúdio.
O que sobra de firme sobre desconexão é modesto. Períodos deliberados de afastamento do telefone melhoram o bem estar em 8.147 pessoas somadas, com ganhos de 0,21 e 0,27 na medida usada, valores que a convenção da área trata como efeito pequeno, e a idade média dessas amostras é de usuária de rede social, não de cliente de estúdio.10 Tem ainda um achado que desmonta a versão simples da história. Entre 360 praticantes regulares de exercício na Hungria, quem se exercita com mais frequência e por mais tempo não usa menos o telefone, usa de outro jeito, mais para o esporte e menos para distração, e só a intensidade do treino apareceu ligada a menos tempo total de tela.11
Para quem dá aula, a consequência prática é uma pergunta barata que quase ninguém faz. Vale perguntar à aluna antiga o que ela sente que ganha ali e não ganha em outro lugar, e anotar a resposta em vez de supor a partir do que o setor publica. Enquanto essa pergunta não for feita com método, o que a casa tem é um efeito documentado à espera de explicação, e a explicação mais confortável, a de que as pessoas voltam pelo sossego, segue sendo a única que ninguém testou.
Fontes
- Caldwell, Harrison, Adams, Quin e Greeson, Journal of American College Health, 2010.
Curso de quinze semanas de Pilates, Taiji quan ou GYROKINESIS com 166 universitários nos Estados Unidos, com aumento dos escores de atenção plena e associação com melhor qualidade de sono. - Guidotti, Fiduccia, Morisi e Pruneti, Healthcare, 2025.
Estudo observacional italiano com 25 praticantes de Pilates e 24 controles não ativos, com melhora no fator de tempo livre, descrito como aproveitar o tempo livre tirando a cabeça dos compromissos. - Melo, Noce, Santos, Silva, Martins Filho e Ugrinowitsch, Mudanças, Psicologia da Saúde, 2021.
Motivos declarados de 52 praticantes de Pilates no Brasil pela escala IMPRAFE-54, com Saúde em primeiro e Prazer em segundo lugar. - Vuckovic e Duric, Frontiers in Psychology, 2024.
Motivos de exercício de 830 usuários de academia na Eslovênia pelo inventário EMI-2, comparando treino sozinho, aula em grupo e personal trainer. - ABC Fitness Solutions, relatório Wellness Watch, Community in Fitness, 2025.
Afirmação de mercado de uma empresa de software de gestão para academias e estúdios, sem metodologia, sem tamanho de amostra e sem data de campo divulgados. - Mariana Tek, Boutique Fitness Trends Report.
Afirmação de mercado de uma empresa de agendamento para estúdios boutique, com leitura do estúdio como espaço de pertencimento e sem pesquisa quantificada divulgada. - Global Wellness Institute e Global Wellness Summit, 10 Wellness Trends for 2026.
Painel de especialistas com patrocinador comercial exclusivo, sem pesquisa com consumidor e sem estatística, que traz reação contra a otimização excessiva e não traz espaço sem telefone. - Böttger, Poschik e Zierer, Behavioral Sciences, 2023.
Meta-análise de 22 estudos com efeito negativo geral do uso e da presença do smartphone sobre desempenho cognitivo, com heterogeneidade alta entre domínios. - Ruiz Pardo e Minda, Acta Psychologica, 2022.
Replicação direta pré-registrada do experimento original do efeito de dreno cerebral, sem diferença entre as condições de localização do telefone nas duas tarefas aplicadas. - Ansari, Iqbal, Azeem e Danyal, Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, 2024.
Meta-análise de desintoxicação digital com 8.147 participantes e idade média de 25 anos, com efeitos pequenos e positivos sobre bem estar subjetivo e psicológico. - Pirwani e Szabo, Health Science Reports, 2024.
Estudo transversal com 360 praticantes regulares de exercício na Hungria sobre a repartição do tempo de smartphone em uso esportivo, utilitário e hedônico. - Imagens, banco de imagens licenciado. Crédito e legenda definidos na edição.
O estúdio chega depois, e o acesso já estava decidido
A estatística econômica brasileira guarda Pilates, musculação e yoga na mesma linha, e por isso ninguém sabe onde ficam os estúdios. O que o país sabe medir é outra coisa, e ela é mais dura. Quando o equipamento público está perto de casa, quem tem menos escolaridade é justamente quem mais se move.

Na classificação econômica oficial brasileira existe uma linha chamada 9313-1/00, atividades de condicionamento físico. Dentro dela cabem ginástica, musculação, yoga, Pilates, alongamento corporal, antiginástica e afins, praticadas em academias, centros de saúde física e outros locais especializados, mais hidroginástica e o trabalho de instrutores de educação física, personal trainers incluídos.1 Um estúdio de dez alunos e uma academia de mil são, ali, a mesma coisa. E se o estúdio funciona dentro de uma clínica, ele nem está nessa linha, porque fisioterapia e hidroterapia moram em outro código.1 A consequência é pouco confortável. Não existe contagem oficial de estúdio de Pilates por bairro no Brasil. Não existe nem o denominador.
A frase que circula é conhecida. O estúdio abre, o bairro muda de preço. Ela tem forma de observação urbana, com sequência, causa e consequência, e tem a vantagem de parecer verificável a olho nu. Só que ninguém verificou.
O método famoso já veio com bula
O trabalho mais conhecido para medir mudança de bairro pelo comércio é de 2018, de Glaeser, Kim e Luca. Eles cruzaram listagens do Yelp de 2004 a 2016 com preço de imóvel e mudança demográfica nos Estados Unidos, e mediram o que o comércio novo antecipa. A entrada de uma cafeteria nova em um código postal se associa, em um ano, a uma alta de 0,5% no preço dos imóveis. O crescimento de Starbucks e cafés aparece com coeficiente 0,536. Na correlação com o aumento da população com curso superior, mercearia 0,352, lavanderia 0,338, café 0,319 e bar 0,313, e os quatro se separaram do acaso com folga.2
Agora o fitness. O artigo não traz resultado nenhum sobre academia, estúdio, yoga ou serviço pessoal.2 O método existe, a base existe, o teste foi feito para café, bar, mercearia e lavanderia, e a versão fitness dessa correlação não foi medida. Não é que o resultado tenha dado fraco. Ele não está lá.
Quem inventou o método deixou o aviso escrito. Mapa comercial é complemento, e não substitui estatística oficial.2 Isso vale como regra de leitura para qualquer lista de estúdios que apareça organizada por bairro. Listagem de negócio é listagem de negócio.
O mapa que existe é americano
Em 2018 o The Philadelphia Inquirer publicou o levantamento que a pauta brasileira gostaria de ter em casa. A repórter Ellie Silverman pegou os 235 estúdios filiados ao ClassPass na região metropolitana de Filadélfia, oito condados, e olhou onde eles estavam. Estavam em 89 dos 228 códigos postais. As áreas com estúdio eram 80% brancas, contra 57% nas áreas sem estúdio, e a renda mediana nos códigos postais com estúdio era cerca de 20 mil dólares mais alta. Em Center City, o número tinha ido de 16 estúdios cinco anos antes para 36.3
É jornalismo de dados, não pesquisa revisada por pares, e a base é a carteira de um serviço de assinatura, o que embute duas escolhas comerciais, a de quem entra e a de onde a plataforma opera. Vale como precedente de método e como quadro comparativo internacional. Não vale como número brasileiro, e nenhuma operação de tradução o transforma em um.
A literatura acadêmica por trás disso é mais antiga e aponta na mesma direção. Em 2006, Powell e colegas cruzaram cadastro comercial de estabelecimentos com dados populacionais do censo americano, por código postal, e acharam que academia, clube de esporte por associação, estúdio de dança e campo de golfe público eram menos prováveis em bairro de renda mais baixa e em bairro com maior proporção de residentes afro americanos, hispânicos e de outras minorias raciais.4 O resumo publicado não traz coeficiente, traz a direção. Vinte anos depois, um estudo com 69.889 setores censitários dos Estados Unidos continentais, com ano de referência 2018, colocou número na mesma coisa. Setores de maioria negra não hispânica e setores hispânicos tinham menos academias, com coeficientes de menos 0,51 e menos 0,60, além de menos área verde e mais poluição. Setores de alta pobreza tinham menos academias, menos 0,15, e menos área verde.5
Dois cuidados vêm colados. Os coeficientes são de variáveis padronizadas, então comparam grupos entre si e não contam academias por quarteirão. E o próprio estudo mostra o que o desenho estatístico faz com um mapa, porque, ao entrar o efeito fixo de condado, a suposta vantagem de caminhabilidade dos setores negros inverte de sinal.5 Quem lê mapa sem olhar o desenho está lendo outra coisa.
O que o Brasil sabe medir
São Paulo tem o melhor material brasileiro sobre esse terreno, e ele não fala de estúdio nenhum. Um estudo voltou às mesmas 978 pessoas três vezes, em 2014 e 2015, em 2020 e 2021, e em 2023 e 2024. A atividade física no lazer da cidade subiu, de 38,0% para 50,4% e depois 51,4%. O agregado é boa notícia. A abertura por escolaridade não é. Entre quem tem fundamental incompleto ou menos, a prática foi de 34,9% para 44,1% e recuou para 41,1%. Entre quem tem superior, foi de 46,1% para 53,0% e 59,6%.6 Mesma cidade, mesmo período, mesmas pessoas, e as duas curvas se separaram.
O estudo mede também o efeito de marcadores acumulados, num índice que combina sexo, raça ou cor da pele e escolaridade, de 0 a 4. Quem acumulava três praticava menos, razão de prevalência 0,72, e quem acumulava quatro praticava ainda menos, 0,62, numa escada que os autores registram como consistente.6
E aí vem o contraste que quase ninguém escreve. A atividade física de deslocamento, a de ir a pé para o trabalho, subiu de 61,8% para 73,2% e 71,6%, e não se associou de forma significativa ao índice de vulnerabilidade em nenhuma das três medições.6 A desigualdade se concentrou no lazer, e não no deslocamento.

A calçada chega antes
Antes de qualquer estúdio existe a rua. Uma auditoria feita sobre imagens do Google Earth em São Paulo percorreu 1.205 rotas residenciais de 400 a 725 metros, com 11.276 segmentos e 11.222 cruzamentos, e pontuou o microambiente de caminhada. Os escores gerais mais altos ficaram na região Centro Oeste da cidade. Pessoas com escolaridade mais alta moravam em áreas com escore ambiental significativamente melhor, e pessoas de menor escolaridade moravam nas áreas com pior condição de calçada.7 Os mesmos autores registram que as academias ao ar livre aumentaram entre 2015 e 2020, e que essa melhora ainda é mais comum nas áreas de maior nível socioeconômico.7
O protocolo da mesma investigação de longo prazo em São Paulo escreve a frase inteira, e ela vem de saúde pública, não de imobiliária.
Vale ler isso com o rótulo certo. É um protocolo de estudo, o que significa que a afirmação aparece como contexto e justificativa da investigação, e não como resultado numérico do próprio artigo.8 É a leitura dos autores. E a leitura dos autores é o que existe, porque o mesmo protocolo mede centro esportivo privado e centro esportivo público como categorias distintas, sem informar a fonte desses dados nem a distribuição por nível socioeconômico.8 Nem a investigação urbana mais equipada do país publica hoje o mapa que a pauta gostaria de ter.
O número que inverte a matéria
A fonte brasileira mais forte desse conjunto tem 88.531 adultos, metade deles mulheres, com idade média de 47,2 anos. A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 perguntou, entre outras coisas, se existe equipamento público de atividade física perto do domicílio. O estudo dividiu a amostra em cinco faixas de escolaridade e cruzou a resposta com a prática de atividade física no lazer. Na faixa de menor escolaridade, ter esse equipamento perto de casa aparece com razão de chance 3,07, com intervalo de 2,35 a 4,01. Na faixa de maior escolaridade, 1,38, com intervalo de 1,22 a 1,55.9 É efeito mais que duas vezes maior na ponta de baixo. Por renda a diferença encolhe, 1,59 no quinto mais pobre contra 1,44 no mais rico.9
O limite dessa fonte é o que a torna interessante. Ela mede equipamento público, e os autores declaram que não analisaram academia privada.9 Ela não diz nada sobre estúdio. O que ela diz é o contrário do que a pauta original imaginava, e é mais duro de digerir. Onde o equipamento é público e fica perto, quem tem menos escolaridade é justamente quem mais se move.
A contenção, que é obrigatória
Aqui a matéria segura a própria mão. A revisão de escopo mais completa sobre disponibilidade de recurso de atividade física juntou 46 estudos, com buscas até dezembro de 2022, e examinou 141 associações. Entre as 106 que cruzam disponibilidade com nível socioeconômico, 29 foram positivas, ou seja, mais recurso em área de renda mais alta. São 27,4%. Outras 40 não foram significativas, 24 deram resultado misto, e 13 apontaram para o outro lado, com mais recurso em área de renda mais baixa.10
O padrão fica mais nítido nas medidas compostas, 9 de 15 positivas, e some quando o recorte é equipamento público e não excludente, onde 66,7% das associações não foram significativas.10 A frase honesta é essa. A desigualdade de equipamento aparece com mais força no equipamento privado e nas medidas compostas, e some quando se olha só o equipamento público. Os autores declaram ainda que incluíram apenas estudos em inglês, que mediram disponibilidade e não uso, que encontraram 28 definições diferentes de fronteira de comunidade e 41 indicadores distintos, o que impediu a meta análise, e que a área rural quase não aparece.10 E o corte é equipamento em geral, nunca estúdio de Pilates.
Do lado da causa, o aviso vem da economia urbana. Um levantamento com 104 domicílios que se mudaram para bairros de gentrificação por construção nova em Vancouver e Calgary perguntou o que pesou na escolha. Proximidade de área verde foi apontada como importante por 70%. Segurança pesou mais, 82%. E só 25% procuraram ativamente um bairro verde, enquanto 38% consideraram o verde depois de já ter visitado o imóvel.11 Os autores concluem que definir gentrificação verde como um processo em que só o verde atrai domicílio de renda mais alta não reflete a confluência de fatores que motiva a mudança. Amostra pequena, dois casos canadenses, resposta declarada pelo próprio morador. É dado de contenção, não de prova. Mas o paralelo é direto. Se o parque não explica sozinho, o estúdio explica menos ainda.
Por que isso é assunto de saúde
Duas notas fecham o quadro, e empurram na mesma direção. Em Singapura, a abertura escalonada de unidades de uma rede privada de academia em 26 subzonas se associou a uma queda de 0,66 ponto percentual nas consultas médicas mensais por habitante, com 199 subzonas acompanhadas mês a mês entre 2020 e 2022.12 Os autores declaram que não tinham dado individual de renda, escolaridade nem sexo, e que a generalização para fora de Singapura é limitada. Serve para uma coisa só. Onde o equipamento chega, o corpo muda, e por isso a geografia do equipamento é assunto de saúde antes de ser assunto de estilo de vida.
A outra nota é brasileira e vem do Nordeste. Em pré escolas públicas de bairros periféricos de uma capital, 128 crianças de 3 a 5 anos tiveram a atividade física medida por acelerômetro. A qualidade do espaço público aberto e a segurança noturna previram o nível de atividade total.13 Uma distância maior até o espaço público apareceu associada a mais atividade moderada a vigorosa, resultado contraintuitivo que os próprios autores atribuem ao deslocamento a pé, e que não autoriza ninguém a dizer que morar longe faz bem. O que vale reter é o par que sobrou. Qualidade e segurança, e não a simples existência do ponto no mapa.
Volte agora à linha 9313-1/00. Ela guarda o estúdio de Pilates, a academia de musculação e a aula de yoga na mesma casa da planilha, e é por isso que o país não tem a série que permitiria testar se o estúdio chega antes ou depois do preço.1 A Pesquisa Nacional de Saúde, no mesmo país, pergunta a 88.531 pessoas se existe equipamento público perto de casa, e sabe dizer o que essa resposta muda.9 Uma das duas perguntas está respondida. A outra não tem nem os dados para começar.
1. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Classificação Nacional de Atividades Econômicas, subclasse 9313-1/00, Atividades de condicionamento físico.
Norma oficial que agrupa Pilates, musculação, yoga, ginástica e alongamento na mesma subclasse econômica, e exclui fisioterapia e hidroterapia, que ficam em código próprio.
2. Harvard Business School, Nowcasting Gentrification, Using Yelp Data to Quantify Neighborhood Change, working paper 18-077, 2018.
Cruzamento de listagens comerciais com preço de imóvel e mudança demográfica nos Estados Unidos, origem do efeito de 0,5% associado à cafeteria nova e do resultado nulo para fitness.
3. The Philadelphia Inquirer, reportagem de Ellie Silverman sobre a distribuição de estúdios de fitness na região metropolitana de Filadélfia, 2018.
Levantamento jornalístico de 235 estúdios filiados a um serviço de assinatura em oito condados, origem da comparação de composição racial e de renda entre códigos postais com e sem estúdio.
4. American Journal of Public Health, Availability of physical activity-related facilities and neighborhood demographic and socioeconomic characteristics, 2006.
Estudo transversal por código postal nos Estados Unidos, fundador dessa literatura, com direção do achado e sem coeficiente publicado no resumo.
5. Preventive Medicine, estudo sobre ambiente de atividade física, composição racial e pobreza em setores censitários dos Estados Unidos, 2026.
Regressão em 69.889 setores censitários com ano de referência 2018, origem dos coeficientes padronizados de disponibilidade de academia, área verde e poluição.
6. International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, estudo de longo prazo sobre atividade física, vulnerabilidade e ambiente na cidade de São Paulo, 2026.
Acompanhamento de 978 participantes em três medições entre 2014 e 2024, origem da separação por escolaridade na atividade física no lazer e do contraste com a atividade de deslocamento.
7. Revista de Saúde Pública, auditoria do microambiente de caminhada em rotas residenciais na cidade de São Paulo, 2026.
Avaliação remota de 1.205 rotas, 11.276 segmentos e 11.222 cruzamentos, origem da associação entre escolaridade e qualidade de calçada e do registro sobre academias ao ar livre.
8. BMJ Open, protocolo do estudo de longo prazo sobre atividade física e ambiente construído em São Paulo, 2025.
Protocolo com dezenove características ambientais geocodificadas, fonte da leitura dos autores sobre concentração das melhorias de infraestrutura em áreas mais ricas.
9. BMC Public Health, estudo sobre equipamento público de atividade física, programas comunitários e prática no lazer no Brasil, 2022.
Amostra nacionalmente representativa de 88.531 adultos da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, origem da razão de chance de 3,07 na menor escolaridade contra 1,38 na maior, e que declara não ter analisado academia privada.
10. Preventive Medicine Reports, revisão de escopo sobre disponibilidade de recursos de atividade física e características socioeconômicas da comunidade, 2024.
Revisão de 46 estudos e 141 associações, origem do dado de que 27,4% das 106 associações com nível socioeconômico foram positivas, e das limitações declaradas de idioma, escopo e definição de fronteira.
11. Urban Studies, estudo sobre área verde, amenidade e decisão de mudança em bairros de gentrificação no Canadá, 2025.
Levantamento com 104 domicílios em Vancouver e Calgary, origem dos percentuais de importância declarada do verde e da segurança, e da ressalva dos autores contra explicações de fator único.
12. PNAS Nexus, estudo sobre a chegada de equipamento privado de exercício e uso de serviços de saúde em Singapura, 2026.
Painel de 199 subzonas entre 2020 e 2022 com aberturas escalonadas em 26 delas, origem da queda de 0,66 ponto percentual nas consultas médicas mensais por habitante, sem variável individual de renda ou escolaridade.
13. Journal of Physical Activity and Health, estudo sobre acesso a espaços públicos abertos e desigualdade de atividade física em pré escolares brasileiros, 2026.
Medição por acelerometria em 128 crianças de 3 a 5 anos de pré escolas públicas de bairros periféricos de uma capital do Nordeste, origem dos achados sobre qualidade do espaço, segurança noturna e distância.
Imagens de banco de imagens licenciado, com crédito a definir na diagramação.
A frase do professor importa, a receita pronta não sobreviveu
Por vinte anos o campo da aprendizagem motora ensinou que mandar a atenção para fora do corpo era melhor que mandar para dentro. Uma reanálise corrigiu o viés de publicação da literatura inteira e o efeito praticamente desapareceu. O que ficou de pé é mais útil que a regra que caiu.

Existe um campo inteiro de pesquisa dedicado a uma pergunta que parece detalhe de estilo. Para onde o professor manda a atenção do praticante, para dentro do corpo ou para fora dele. Uma meta-análise em rede publicada em 2026 reuniu 87 estudos que testaram exatamente isso, em tarefas motoras variadas, sempre com o mesmo desenho básico. Dois grupos recebem a mesma sessão e instruções idênticas, exceto por uma frase. Um ouve algo sobre o próprio corpo, o outro ouve algo sobre o efeito do movimento no ambiente. Depois se mede quem executou melhor e quem reteve mais.3
A resposta que virou consenso apareceu em 2021, num conjunto de revisões sistemáticas publicado na Psychological Bulletin. Reunindo 73 estudos e 1.824 participantes em desempenho, mais 40 estudos e 1.274 participantes em aprendizagem, os autores encontraram vantagem consistente do foco externo. Os tamanhos de efeito ficaram em 0,264 para desempenho e 0,583 para retenção, numa escala em que zero significa nenhuma diferença entre os dois comandos. A meta-regressão não achou moderação por idade, condição de saúde nem nível de habilidade, e foi essa ausência que virou a versão popular do achado, funciona para todo mundo.1

A correção que ainda não chegou às formações
Em 2024, na mesma Psychological Bulletin, um grupo de pesquisadores pegou os dados de sete meta-análises anteriores, entre elas a de 2021, e refez as contas com um método bayesiano robusto, montado para testar vários modelos plausíveis de viés de publicação ao mesmo tempo. Viés de publicação é a tendência de o estudo que deu resultado bonito virar artigo e o que deu resultado nulo ficar na gaveta. Eles encontraram evidência de moderada a forte desse viés em todas as análises. Corrigidos, os efeitos médios desabaram para 0,01 em desempenho e 0,15 em retenção, e os fatores de Bayes passaram a favorecer a hipótese nula em todas as análises.2
Isso não significa que a instrução deixou de importar. Significa outra coisa, e ela é mais desconfortável. Os mesmos autores registraram heterogeneidade clara entre os estudos, variação grande que eles atribuem a fatores de contexto ainda desconhecidos. Ou seja, alguma coisa está acontecendo ali, e o efeito médio único simplesmente não é a forma certa de descrever. A reanálise em rede de 2026 empurra na mesma direção quando mostra que a hierarquia entre os tipos de foco muda conforme o nível de treino do praticante, e que ela precisou reclassificar a instrução usada em 78 dos 87 estudos porque o campo não estava usando a mesma definição operacional do que é foco externo.3
O que continua utilizável
A parte que sobrevive à correção é justamente a que serve a quem dá aula. Num experimento com 51 jogadores de baixa habilidade de tênis de mesa, três grupos receberam instruções idênticas, mudando só a frase de foco, a mão que segura a raquete, a bola ou os alvos marcados na mesa. Os dois grupos que ouviram algo fora do corpo melhoraram a acurácia do backhand no pós-teste, e o grupo que ouviu sobre a própria mão teve efeito de treino baixo.4 Em outro experimento, com salto horizontal parado, todas as quatro condições de foco interno testadas ficaram atrás da condição controle, aquela em que ninguém disse nada. Entre elas, pensar no joelho produziu salto mais curto que pensar nos braços.5
Vale prestar atenção nesse segundo achado, porque ele é o detalhe mais contraintuitivo do conjunto. Não dizer nada venceu quatro versões de dizer alguma coisa sobre o corpo, e o lugar do corpo citado na frase alterou o resultado. O comando não é um envelope neutro que carrega a informação técnica. Ele entra na execução. E se ele entra, escolher a frase no automático é abrir mão de uma variável.
E o Pilates entra onde nessa história
Não entra, e essa é a informação honesta. Três buscas na base do Europe PMC com vocabulários diferentes, com as listas de títulos lidas por inteiro, não devolveram nenhum ensaio que manipule foco externo contra foco interno dentro de um exercício ou de uma aula de Pilates. Não existe também contagem observacional de instruções em aula de Pilates. Tudo que este texto trouxe acima vem de sprint, tênis de mesa, salto e tarefas de laboratório, e levar isso para o reformer é transposição, não leitura de evidência. A transposição pode ser razoável, o método é ensinado por comando verbal como qualquer outro. Ela continua sendo transposição.
Existe uma analogia, e ela precisa vir declarada. Um estudo observacional gravou 20 sessões de treino com prótese de membro inferior, 338 minutos e 904 falas de instrução de profissionais com dez anos de experiência média, e categorizou a direção de cada uma. Deram 64% de instruções internas contra 9% externas, com uma interação verbal a cada 22,1 segundos.6 É treino protético em clínicas dos Estados Unidos, não é aula de Pilates, e ninguém fez essa contagem num estúdio. O que o número autoriza é uma hipótese, num setor de ensino de movimento com profissionais experientes a linguagem correu para dentro do corpo sem que ninguém decidisse isso. Se o mesmo vale aqui, é pergunta em aberto, e a resposta pede apuração própria.
1. Chua LK, Jimenez-Diaz J, Lewthwaite R, Kim T, Wulf G. Superiority of external attentional focus for motor performance and learning. Systematic reviews and meta-analyses. Psychological Bulletin, 2021.
Conjunto de revisões sistemáticas com meta-análises que consolidou a vantagem do foco externo e virou base do consenso contestado em 2024.
2. McKay B, Corson AE, Seedu J, De Faveri CS, Hasan H, Arnold K, Adams FC, Carter MJ. Reporting bias, not external focus. A robust Bayesian meta-analysis and systematic review of the external focus of attention literature. Psychological Bulletin, 2024.
Reanálise bayesiana dos dados de sete meta-análises anteriores, com correção de viés de publicação, e a fonte central desta matéria.
3. Peng F, Yang Z, Su Y, Shi Y, Lin J, Zeng Y, Li G, Jia X, Li W, Xie Y. Reevaluating attentional focus on motor performance according to expertise. A stratified network meta-analysis. Psychology of Sport and Exercise, 2026.
Meta-análise em rede com 87 estudos, auditoria das instruções e estratificação por nível de treino do praticante.
4. Niźnikowski T, Łuba-Arnista W, Arnista P, Porter JM, Makaruk H, Sadowski J, Mastalerz A, Niźnikowska E, Shaw A. An external focus of attention enhances table tennis backhand stroke accuracy in low-skilled players. PLoS ONE, 2022.
Experimento com 51 jogadores de baixa habilidade em que só a frase de instrução mudava entre os grupos.
5. Strick AJ, Markwell LT, Makaruk H, Porter JM. The location of an internal focus of attention differentially affects motor performance. PLoS ONE, 2023.
Experimento de salto horizontal parado com quatro condições de foco interno e uma condição controle sem instrução.
6. Lee SP, Bonczyk A, Dimapilis MK, Partridge S, Ruiz S, Chien LC, Sawers A. Direction of attentional focus in prosthetic training. Current practice and potential for improving motor learning in individuals with lower limb loss. PLoS ONE, 2022.
Estudo observacional que gravou e categorizou 904 falas de instrução em treino protético, usado aqui apenas como analogia declarada.
Imagens de banco de imagens editorial, sem identificação de estúdio, marca ou pessoa.
A mola vermelha não é um número
Trocar o carro imobilizado pela mola mais fraca aumentou a ativação do reto abdominal em 228% num exercício de reformer. A mesma mola alonga 23,5 cm num exercício e 53,8 cm em outro. O que o estúdio manipula como se fosse peso se comporta como outra coisa, e nenhum estudo localizado testou se a aula chamada de avançada corresponde a carga que alguém consiga acompanhar.
Dezoito mulheres com pelo menos dois anos de prática regular repetiram três exercícios de reformer em três condições diferentes. Carro imobilizado com todas as molas aplicadas, uma mola vermelha de rigidez declarada em 0,22 kg por centímetro, e uma mola branca de 0,06 kg por centímetro. No elephant, a ativação do reto abdominal saiu de 7,5% para 24,6% do máximo daquele músculo, aumento de 228% que os próprios autores calcularam. No knee-off, foi de 11,2% para 18,1%. No hip roll, subiu 28%. A resistência caiu e a exigência aumentou.1
A escala pede uma frase. A eletromiografia de superfície capta o sinal elétrico do músculo, e o número é normalizado pelo máximo que aquela pessoa consegue produzir naquele músculo específico. Por isso 7,5% é pouco e 24,6% é bastante. Entre as duas condições, a mola mais fraca oferece menos força, não mais. O que mudou foi o carro poder se mover.
Os autores são explícitos quanto a isso, e a leitura correta importa mais que o número. A conclusão do estudo não é que mola fraca treina mais. É que a instabilidade da plataforma, e não a magnitude da resistência, foi o fator que elevou a ativação. A direção depende do exercício e do músculo. O oblíquo interno no hip roll não se moveu de forma significativa, com p igual a 0,64. Reto femoral e bíceps femoral também ficaram parados em parte das comparações. A amostra é de mulheres, todas praticantes de dois anos ou mais, e não houve análise cinemática, então não se sabe em que parte do corpo o ajuste postural aconteceu.1
A mesma mola, dois alongamentos
Se a resistência da mola não se comporta como peso, vale perguntar como ela se comporta. Um estudo com 22 homens mediu, no mesmo experimento, três coisas que raramente aparecem juntas. A taxa de cada mola, a tensão inicial de cada mola, e quanto cada mola efetivamente alongou em cada exercício. No modified side-arm, a mola alongou 23,5 cm. No modified high-five, alongou 53,8 cm. Mesma mola, mais que o dobro de percurso, porque o exercício é outro.2
A consequência aparece quando a tabela do estudo é lida na horizontal. Na fase concêntrica, o elevador da escápula trabalhou a 9,29% do máximo com a mola amarela no high-five, a mais leve das três testadas, e a 9,08% com a mola vermelha no side-arm, a mais pesada. A mola fraca em muito alongamento exigiu mais que a mola forte em pouco alongamento. A razão entre elevador da escápula e serrátil anterior foi de 0,50 no side-arm com a amarela e de 0,99 no high-five com a vermelha, com p menor que 0,001, o que significa que não mudou apenas a intensidade, mudou a divisão do trabalho entre os músculos. Nem tudo se moveu, e a razão entre trapézio superior e trapézio inferior ficou estável na fase concêntrica. A amostra é de homens de 20 a 29 anos, e o artigo não traz seção de limitações.2
Subir a mola trocou o músculo
Vinte e oito mulheres fizeram side splits, a abdução de quadril no reformer, em duas condições. Leve, uma mola branca. Pesada, uma branca somada a uma azul. Cinco repetições em cada condição, com eletromiografia de seis músculos e captura de movimento em três dimensões.3
| O que foi medido | Mola leve | Mola pesada |
|---|---|---|
| Glúteo médio, % do máximo | 8,34 | 28,91 |
| Adutor longo, % do máximo | 28,9 | 4,83 |
| Oblíquo interno, % do máximo, sem diferença significativa | 28,44 | 33,42 |
| Abdução de quadril, perna fixa, em graus | 15,42 | 12,39 |
| Abdução de quadril, perna deslizante, em graus | 13,25 | 9,76 |
| Simetria do quadril, valor maior indica mais assimetria | 1,20 | 1,45 |
| Estabilidade do tronco, em mm | 2.518,46 | 1.869,44 |
| Estabilidade pélvica, em mm | 1.546,53 | 984,50 |
A leitura honesta pede as duas direções ao mesmo tempo. A mola pesada estabilizou tronco e pelve e multiplicou o recrutamento do glúteo médio. A mola pesada também cortou cerca de três graus de abdução em cada perna, piorou a simetria entre os lados e praticamente apagou o adutor longo, que saiu de 28,9% para 4,83% do máximo. Quatro dos seis músculos medidos não mudaram de forma significativa. O que aconteceu ali não foi o mesmo exercício com mais carga, foi a troca de um exercício por outro, com outro músculo principal e menos amplitude. Os autores registram que a amostra é de mulheres saudáveis e que nem aptidão nem experiência prévia com o movimento foram controladas.3
Com a mola travada, o corpo continuou mudando a carga
Vinte e seis homens fizeram arm work no reformer com uma única mola azul em todas as tentativas, tensão de 3 a 3,2 kg e taxa de 0,67 kg por centímetro. A mola foi mantida constante de propósito, para isolar outra variável. O que variou foi o ângulo de abdução do ombro, em quatro posições, 0, 90, 135 e 160 graus. Todos os músculos medidos diferiram entre as condições, com p menor que 0,001. O trapézio inferior teve pico a 135 graus. Trapézio médio e deltoide posterior tiveram pico a 90. Trapézio superior, serrátil anterior e elevador da escápula tiveram pico a 160. A razão entre trapézio superior e trapézio inferior foi menor a 90 e a 135 graus do que a 160. Os próprios autores apontam a limitação, uma mola só impede falar de interação entre mola e ângulo.4
O ângulo não é a única variável que entra sem passar pelo gancho. Com tensão igual para todo mundo, 32 mulheres divididas entre experientes e não experientes produziram padrões diferentes de recrutamento no knee stretch, com efeito de grupo no oblíquo interno e na razão entre oblíquo interno e reto abdominal. Reto abdominal e multífido, medidos isoladamente, não diferiram entre os grupos.5 Numa amostra pequena, de 12 voluntários fisicamente ativos, instruir o praticante sobre o recrutamento do powerhouse aumentou a ativação de todos os músculos medidos, com exceção do oblíquo externo, e melhorou a estabilidade lombopélvica.6 A mola não mudou em nenhum dos dois casos. O que o corpo fez com ela, sim.
Há ainda um resultado desconfortável para a ideia de que aparelho é uma escada. Num estudo com 15 praticantes, todos os músculos mostraram atividade maior no reformer que no wall unit durante o teaser, e não houve diferença entre reformer e mat.7 O mat não tem mola nenhuma.
O que a indústria afirma sobre a própria mola
Nada do que vem nesta seção é medição independente. São documentos de fabricante sobre os próprios produtos, e valem como declaração de parte interessada, não como prova de comportamento físico.
A Merrithew publica uma tabela oficial de resistência com tensão inicial e taxa por polegada de extensão para cada modelo de mola. A de 100%, vermelha na linha da empresa, aparece com tensão inicial de 6,0 a 7,5 libras e taxa de 1,25 libra por polegada, com tolerância declarada de 5% para mais ou para menos. Ou seja, duas molas do mesmo modelo já saem de fábrica diferentes uma da outra, pela própria especificação. O documento publica também a fórmula, some a tensão inicial à taxa multiplicada pelas polegadas de extensão, e traz o exemplo da própria empresa, uma mola de 100% estendida 12 polegadas entrega 21 libras de resistência total. E declara que o curso máximo do carro é de 43 polegadas.8
Aplicando a fórmula publicada aos valores publicados, e este é um cálculo desta revista, não um número que a empresa divulgou, a mesma mola de 100% entrega 6,0 libras na tensão inicial e 59,75 libras no fim do curso máximo declarado. Quase dez vezes de variação dentro de uma única mola. O curso máximo é o extremo do que o documento descreve, e não a distância que um exercício qualquer percorre. Não localizamos medição publicada de quanto desse curso cada exercício usa de fato.
Existe uma divergência dentro da própria empresa, e ela entra aqui como divergência. A tabela oficial traz a tensão inicial da mola de 100% como 6,0 a 7,5 libras.8 Um texto no blog da Merrithew, publicado em 2019 e assinado pela fisioterapeuta Sara Baker, traz 5,8 libras para a mesma mola.9 Os dois documentos são da empresa. Esta reportagem não tem elementos para dizer qual dos dois está correto, e registra que os dois estão publicados.
O mesmo texto do blog descreve o comportamento da mola quase nos termos desta pauta. Afirma que o peso depende da gravidade e exige maior produção de força para iniciar o movimento, enquanto na mola a resistência começa em nível mais baixo e cresce ao longo da amplitude, com o máximo no fim do movimento. E fecha com uma ressalva que vale mais que os números.9
A Balanced Body, outra fabricante grande, resolve a mesma questão sem número nenhum. Na consulta feita para esta reportagem, a página de molas da empresa não trazia valor de resistência, taxa por unidade de alongamento nem tensão inicial. Trazia uma escala verbal.10
Aqui mora a armadilha de cor. O vermelho da Balanced Body é descrito como médio. O vermelho da Merrithew é a mola de 100%, e a tabela da própria empresa lista acima dela uma mola de 125%. Comparar cores entre marcas é erro factual, e a literatura não ajuda a padronizar. No estudo dos exercícios de core, a mola vermelha usada tinha rigidez de 0,22 kg por centímetro.1 No estudo de ombro, a vermelha tinha 0,88.2 Cor não é unidade de medida.
A física que o Pilates raramente cita
Fora do Pilates existe literatura sobre resistência elástica, e ela precisa entrar etiquetada. Nenhum desses estudos foi feito em reformer, então trazer o resultado para cá é analogia declarada, não prova.
Uma metanálise de 11 estudos e 177 participantes comparou resistência variável, aplicada por banda elástica ou corrente, com peso livre. Na amplitude inteira do movimento não houve diferença, com tamanho de efeito padronizado de 0,07 e intervalo de confiança de 95% indo de menos 0,13 a 0,28, o que atravessa o zero. Fatiando por fase, a resistência variável ficou acima do peso livre na fase concêntrica, com efeito de 0,32. E dentro da própria resistência variável, a diferença entre concêntrico e excêntrico foi de 1,40, o maior contraste do trabalho.11 O que esse conjunto descreve é uma resistência que concentra a exigência em um pedaço do movimento em vez de distribuí-la.
Dois achados apertam o argumento. Num teste com 13 atletas de basquete, agachamento a 85% de uma repetição máxima, aumentar a contribuição elástica elevou a potência média e a taxa de desenvolvimento de força na subida, e elevou a velocidade média na descida.12 Num levantamento de longo prazo, o sinal se inverte a partir de certa proporção, e acima de 37% de contribuição elástica a velocidade e a potência máximas caíram.13 Empilhar mola no reformer é análogo a subir essa proporção, e é só análogo. Não localizamos estudo que tenha instrumentado o reformer com célula de carga ou transdutor de força durante o exercício, então a proporção elástica de um exercício de reformer não é um número disponível.
O que ninguém mediu
Chega o ponto em que a apuração precisa dizer o que não encontrou. Não localizamos, nas bases e buscas desta reportagem, nenhum estudo de progressão de carga ao longo do tempo em Pilates de aparelho. A busca por progressão, periodização, sobrecarga progressiva e dose devolveu duração de intervenção, oito semanas, doze semanas, e não protocolo que descreva como a mola deveria subir de uma sessão para a seguinte. Também não localizamos medição independente da curva de força por alongamento de molas de reformer, feita em laboratório fora do fabricante. O que existe são as constantes que os fabricantes declaram e que os estudos reproduzem. E não localizamos estudo sobre inclinação do aparelho ou altura da barra de apoio como variável de carga. Não ter encontrado não é o mesmo que não existir, e essa distância entre as duas frases é exatamente o que esta seção está dizendo.
Nesse vazio, a palavra avançado precisa se apoiar em alguma coisa, e o que ela encontrou foi repertório. Um estudo comparou 19 mulheres experientes com 19 iniciantes em seis movimentos divididos por dificuldade. Básico, chest lift e spine stretch. Intermediário, roll up e double leg stretch. Avançado, teaser e jackknife. A divisão é pelo nome do exercício, não por carga medida, e ninguém progrediu mola nenhuma no desenho do estudo. Os resultados são reais, o oblíquo externo foi mais ativado nas experientes nos seis movimentos, e o escore total da triagem de movimento funcional ficou em 18,7 contra 14,9.14 O que interessa aqui é o critério, e ele é o mesmo do estúdio, herdado inteiro pela pesquisa.
A conclusão que a apuração permite é mais estreita que a suspeita que abriu a pauta, e mais útil que ela. Não é que a aula avançada tenha deixado de progredir carga, porque isso ninguém testou. É que a carga que o estúdio manipula não tem, hoje, um valor que se possa acompanhar de uma sessão para a outra. Ela depende da mola escolhida, de quanto essa mola alonga naquele exercício, do ângulo em que o corpo entra, de quem está executando e da instrução dita antes da primeira repetição. A própria Merrithew escreve, desde 2019, que dois clientes fazendo o mesmo exercício podem receber tensões bem diferentes. Sem um valor acompanhável e sem estudo de progressão publicado, o que restou para definir avançado foi o repertório. Teaser e jackknife entram na categoria pelo nome, na aula e no estudo.
1. Kim HJ, Sung JH, Ryu JK, Jung HC, Wang J. Effect of reformer spring resistance modifications on core muscle activity during basic core muscle exercises. Healthcare (Basel), 2024.
Medidas repetidas com 18 mulheres praticantes há pelo menos dois anos, três exercícios e três condições de plataforma com rigidez de mola declarada, origem do aumento de 228% no reto abdominal durante o elephant.
2. Seo SI, Jung EY, Mun WL, Roh SY. Changes in shoulder girdle muscle activity and ratio during Pilates-based exercises. Life (Basel), 2025.
Vinte e dois homens em dois exercícios por três molas, único estudo localizado que publica taxa de mola, tensão inicial e alongamento efetivo medido, com 23,5 cm num exercício e 53,8 cm no outro.
3. Lee K. Motion analysis of core stabilization exercise in women, kinematics and electromyographic analysis. Sports (Basel), 2023.
Vinte e oito mulheres em side splits com mola leve e mola pesada, com eletromiografia de seis músculos e cinemática tridimensional, fonte da troca de músculo principal e da perda de amplitude.
4. Mun WL, Jung EY, Lei S, Roh SY. Scapular muscle activation at different shoulder abduction angles during Pilates reformer arm work exercise. Medicina (Kaunas), 2025.
Vinte e seis homens com a mesma mola azul em todas as tentativas e quatro ângulos de abdução de ombro, desenho que isola o ângulo do corpo como variável de carga.
5. Lee K. The relationship of trunk muscle activation and core stability, a biomechanical analysis of Pilates-based stabilization exercise. International Journal of Environmental Research and Public Health, 2021.
Trinta e duas mulheres, metade experiente e metade não, no knee stretch em três posições de coluna e pelve, com a mesma tensão de mola para os dois grupos.
6. Fayh A, Brodt GA, Souza C, Loss JF. Pilates instruction affects stability and muscle recruitment during the long stretch exercise. Journal of Bodywork and Movement Therapies, 2018.
Doze voluntários fisicamente ativos, com e sem instrução verbal sobre recrutamento, lido apenas no resumo indexado e citado aqui sem valores numéricos.
7. Werba DD, Cantergi D, Tolfo Franzoni L, Fagundes AO, Fagundes Loss J, Nogueira Haas A. Electrical activity of powerhouse muscles during the teaser exercise of Pilates using different types of apparatus. Perceptual and Motor Skills, 2017.
Quinze praticantes executando o teaser em aparelhos diferentes, lido apenas no resumo indexado, fonte do achado de que o mat não diferiu do reformer.
8. Merrithew Corporation, Spring Resistance Chart, documento técnico de fabricante, 2021.
Tabela oficial com tensão inicial e taxa por polegada de cada modelo de mola, mais a fórmula de cálculo, o exemplo da própria empresa e o curso máximo de 43 polegadas do carro. Documento comercial, citado como afirmação da indústria e não como prova de comportamento físico.
9. Merrithew Corporation, Ask the Expert, por que a tensão da mola no reformer é tratada de forma diferente do treinamento convencional com peso, texto de blog assinado por Sara Baker, 2019.
Texto corporativo com os números de posição inicial e incremento por polegada das molas de 100% e 50%, a descrição do comportamento da resistência ao longo da amplitude e a ressalva sobre variação entre dois clientes no mesmo exercício.
10. Balanced Body, página de produto de molas de reformer.
Página comercial consultada para esta reportagem, com escala apenas verbal de resistência por cor e nenhum valor numérico, taxa por alongamento ou tensão inicial publicados.
11. Li J, Chen Z, Gong M. Muscle activation between variable resistance and free weight training. Journal of Human Kinetics, 2026.
Metanálise de 11 estudos e 177 participantes fora do Pilates, origem do contraste entre fase concêntrica e excêntrica dentro da resistência variável.
12. Shi L, Lyons M, Duncan M, Chen S, Han D, Yang C. Back squat kinetics with elastic resistance. International Journal of Sports Physiology and Performance, 2024.
Treze atletas de basquete em agachamento com quatro proporções de contribuição elástica, lido apenas no resumo indexado, usado como analogia declarada e não como evidência de reformer.
13. Li J, Chen Z, Xu K, Wang Y, Gong M. Variable resistance vs free weight training on strength. Journal of Strength and Conditioning Research, 2026.
Revisão com metanálise sobre efeito de longo prazo e efeito agudo da carga elástica, lida apenas no resumo indexado, fonte da inversão de sinal acima de 37% de contribuição elástica.
14. Ko HS, Jung HU, Park TY, Song JK, Wang J, Jung HC. Comparisons of functional movements and core muscle activity in women according to Pilates proficiency. Frontiers in Physiology, 2024.
Trinta e oito mulheres divididas entre experientes e iniciantes em seis movimentos, com os níveis básico, intermediário e avançado definidos pelo nome do exercício e não por carga medida.
Imagens meramente ilustrativas, sem relação com os fabricantes, estúdios ou estudos citados nesta reportagem.
Por que o Pilates não aparece na lista de encaminhamento
Sistemas de saúde já mandam pessoas em sofrimento psíquico para o movimento, e mandam o movimento de volta para a saúde mental. Em nenhum registro localizado essa rota passa pelo Pilates.

Toda segunda-feira, por duas horas, o CAPS Adulto II de Guaianases, na zona leste de São Paulo, roda um Grupo de Pilates Solo articulado às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde. Conduzem dois técnicos em saúde mental do próprio serviço, um educador físico e um enfermeiro. A experiência está registrada com início em janeiro de 2025 no acervo digital do COSEMS/SP7. O arranjo desmonta a expectativa. O Pilates ali não é destino de encaminhamento para fora. Ele acontece dentro do serviço, conduzido por servidores dele. O registro não informa quantas pessoas participam, como alguém entra no grupo, nem que formação específica esses dois profissionais têm, e nada disso pode ser deduzido.
Do lado de fora, a porta existe e está escrita. A diretriz britânica NG222, do NICE, lista exercício em grupo entre as opções de primeira linha para depressão em adultos, nas duas faixas de gravidade, ao lado de terapia cognitivo comportamental em grupo, ativação comportamental, psicoterapia interpessoal e antidepressivos da classe dos ISRS1. A mesma diretriz orienta não oferecer antidepressivo de rotina como primeira linha na depressão menos grave, a não ser que seja a preferência da pessoa. E a descrição do que conta como exercício em grupo pede três coisas que o estúdio médio não tem, um profissional treinado, um programa de atividade física desenhado especificamente para pessoas com depressão, e cerca de oito participantes por grupo, mais de uma sessão por semana, ao longo de dez semanas. Em nenhuma linha aparece a palavra Pilates. Uma ressalva de método precisa ir junto, o site da diretriz devolveu erro 403 nas quatro tentativas de leitura automatizada, e as citações vêm do resumo oficial assinado pelo próprio comitê da diretriz no BMJ, com as tabelas íntegras.
O encaminhamento anda nos dois sentidos
Na Inglaterra o cruzamento já é rotina de trabalho, e tem nome, dois inclusive, prescrição social e encaminhamento ao exercício. Numa pesquisa com 411 link workers com carteira de casos ativa, 60% relataram encaminhar clientes para serviços de saúde mental, atrás apenas de apoio financeiro, com 61%2. Atividade física aparece bem abaixo, com 24%. A formação segue a mesma inclinação, 66% receberam treinamento em saúde mental e 10% em condições musculoesqueléticas. O tráfego também vem na direção contrária, porque os próprios respondentes relatam receber encaminhamentos das equipes de saúde mental. Em 411 respostas, a palavra Pilates não aparece uma única vez.
Quando o fluxo corre na direção do exercício, o motivo de saúde mental é minoria. Em Manchester, entre 11.909 adultos encaminhados a programas supervisionados de atividade em centros de lazer e espaços comunitários, a queixa primária de saúde mental respondeu por 3,7% dos casos, contra 39,2% de motivo musculoesquelético3. O dado menos confortável está na adesão. Só 34,6% completaram o programa, e o estudo registra que idade mais baixa, maior privação do bairro e motivo psicossocial de encaminhamento previram menor chance de conclusão. É associação descrita, e o artigo não atribui isso a despreparo de ninguém. Ainda assim, o subgrupo que a diretriz manda acolher é justamente o que menos chega ao fim.

Quem recebe esse aluno
Do outro lado do encaminhamento está um profissional que quase sempre é procurado e quase nunca foi preparado. Num levantamento australiano com 56 personal trainers, 96,4% disseram que algum cliente já falou com eles sobre a própria saúde mental durante uma sessão, e 48,2% relataram encontrar questões de saúde mental em atendimentos pelo menos várias vezes por semana4. Ao mesmo tempo, 92,8% se declararam confiantes nas ações que costumam tomar, e quem já tinha feito alguma formação em saúde mental encaminhava mais para profissionais de saúde. São 56 pessoas, num país só, e são personal trainers, não instrutores de Pilates. A amostra não sustenta falar em maioria dos instrutores. Sustenta olhar para o desenho do problema, muita procura, pouca formação, e confiança alta mesmo assim.
A formação específica existe, e é novíssima. Em julho de 2025 a CIMSPA publicou um padrão profissional para trabalho com pessoas com condições de saúde mental, o único dos nove padrões de população dela a tratar do assunto5. Padrão profissional não é lei nem licença. É referência voluntária, de um país só, e não é pré-requisito para dar aula. O mercado de Pilates, por sua vez, já entrou no vocabulário clínico sem entrar no tema. A London Pilates Academy vende um diploma de encaminhamento ao exercício dirigido a profissionais de mat e reformer, com dois dias presenciais mais um de avaliação, por £5506. Saúde mental não é nomeada em nenhum ponto da página do curso.
A lacuna, dita como lacuna
No Brasil falta o trilho institucional que a Inglaterra montou. Um preprint, ainda sem revisão por pares, sustenta que a ausência de uma política nacional de atividade física e práticas corporais no SUS impede o pleno desenvolvimento, a sustentabilidade e a consolidação de programas8. E aqui está a parte que esta reportagem não consegue fechar. Três buscas na base Europe PMC, cruzando Pilates com prescrição social, encaminhamento ao exercício, ansiedade e depressão, não devolveram nenhum registro que descreva profissional de saúde encaminhando paciente ao Pilates por motivo de saúde mental9. A página institucional da academia britânica de prescrição social lista grupos de caminhada, dança, jardinagem, natação, exercício em cadeira, esporte e movimento cotidiano. Pilates não está lá.
Ausência de registro não é prova de ausência de prática. Estúdio não publica em revista indexada, e a prescrição social britânica não abre o destino por modalidade, o que significa que algum Pilates pode estar escondido dentro daqueles 24% de atividade física. O que dá para afirmar é mais estreito, e mais incômodo. Caminhada, dança, natação e jardinagem já fizeram o trabalho de virar destino nomeável. O Pilates ainda não fez. Enquanto não fizer, quem preenche o formulário não tem onde escrever esse nome, e o grupo de segunda-feira em Guaianases segue sendo exceção com endereço, e não rota.
Fontes
- Kendrick T e col., em nome do Guideline Committee, “Management of depression in adults, summary of updated NICE guidance”, BMJ. Resumo oficial escrito pelo comitê da diretriz NG222, com as tabelas de opções de tratamento na íntegra, usado porque a página oficial da diretriz bloqueou a leitura.
- National Academy for Social Prescribing, “Social Prescribing Link Worker Survey, Full Report”. Pesquisa com 411 link workers da Inglaterra com carteira de casos ativa, com destinos de encaminhamento, formação recebida e barreiras relatadas.
- Sharp M e col., “Understanding the factors influencing participant engagement and adherence in exercise referral in the City of Manchester”, BMJ Open Sport & Exercise Medicine. Coorte retrospectiva de 11.909 adultos encaminhados a programas supervisionados de atividade física.
- Dissanayake e col., “Mental Health Promotion in the Personal Trainer, Client Relationship”, Health Promotion Journal of Australia. Levantamento transversal com 56 personal trainers australianos sobre conversa de saúde mental em sessão e rotas de encaminhamento.
- CIMSPA, professional standard “Working inclusively, Working with People with Mental Health Conditions”, versão 1.0. Padrão de especialização por população, voluntário, único dos nove padrões da entidade dedicado a saúde mental.
- London Pilates Academy, página do curso “L3 Diploma in Exercise Referral”. Descrição comercial de curso dirigido a profissionais de mat e reformer, com carga, pré-requisito e preço.
- COSEMS/SP, acervo digital, “Pilates e práticas integrativas como estratégia de cuidado no CAPS Adulto Guaianases”. Relato de experiência de serviço público, sem avaliação de resultado.
- Andrade D e col., “Política nacional de atividade física e práticas corporais no SUS, a hora é agora!”, SciELO Preprints. Preprint sem revisão por pares sobre a ausência de política nacional.
- Europe PMC, buscas próprias da redação cruzando Pilates com prescrição social, encaminhamento ao exercício, ansiedade e depressão. Registro de ausência de fonte, e não confirmação de ausência de prática.
Imagens de banco, uso editorial. Crédito e legenda definitivos entram na diagramação.
O instrutor está entre dois nomes, e quem decide qual vale não é o mercado
Um documento de franquia arquivado em órgão regulador americano diz que a franqueadora não emprega ninguém dentro do estúdio. Advogados que atuam para o lado de quem contrata dizem que o padrão de marca é justamente o que enfraquece a alegação de que o instrutor é autônomo. As duas frases descrevem o mesmo arranjo, e no Brasil quem vai dizer se ele vale é o Supremo Tribunal Federal.

Existe um documento de 2021, arquivado na comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos pela Xponential Fitness, que descreve o negócio da empresa sem nenhum adjetivo. O franqueado seleciona o ponto, adquire o ponto, desenvolve o ponto e opera o estúdio. A franqueadora cobra uma taxa inicial não reembolsável por estúdio e um royalty mensal sobre a receita bruta, contado do início da operação. O portfólio declarado ali tem dez marcas e cobre Pilates, ciclismo indoor, barra, alongamento, remo, ioga, boxe, dança, corrida e treino funcional.1
Relatório anual arquivado em órgão regulador não é material de divulgação. Ele carrega responsabilidade civil sobre declaração falsa, e essa diferença importa. O que o documento estabelece, nessa condição, é uma frase estrutural. A franqueadora não emprega ninguém dentro do estúdio.1
A pergunta interessante começa logo depois dessa frase. Se a franqueadora não emprega, e o estúdio é do franqueado, quem responde pelo instrutor que veste a marca da rede. A resposta curta é que ninguém decidiu ainda. A resposta longa ocupa o resto deste texto.
A parte da história que o número de unidades não conta
O franchising de saúde e bem estar se organiza de forma concentrada, e quem afirma isso é a própria indústria. A International Franchise Association, entidade que representa franqueadores, publicou em 2025 um panorama do segmento com números da FRANdata, empresa que vende dados e relatórios para esse mesmo público. Segundo o levantamento, os 10% maiores sistemas responderam por cerca de 82% das unidades do segmento em 2024, e a entrada de marcas novas passou de 57 em 2020 para 94 em 2023.2 São afirmações de parte interessada em dobro, e valem como retrato do que a indústria diz de si mesma, nunca como medida independente do mercado.
Mesmo assim o dado de concentração é o mais útil dos dois, porque descreve forma e não tamanho. Um segmento em que poucos sistemas concentram a maior parte das unidades é um segmento em que o padrão de operação de poucas matrizes chega a muitos endereços.
No Brasil, a contagem não existe fora do material de venda
Aqui vale dizer o que a apuração não encontrou, porque a ausência também é informação. Não há, em fonte aberta e verificável, contagem de unidades de rede de Pilates no Brasil fora de página comercial de franqueadora. A Pure Pilates declara, em seu material de venda de franquia, 486 unidades e 13 unidades próprias, sem data de referência na página.4 A The Pilates Studio Brasil declara mais de 33 unidades franqueadas no país, distribuídas em sete estados e no Distrito Federal, oito estúdios parceiros em Portugal e um no Chile, com sistema de franquia iniciado em 2000.5 Nenhuma das duas páginas afirma coisa alguma sobre a forma de contratação de instrutor, e nenhuma das duas contagens tem verificação independente disponível.
O agregado que existe é de outro tipo. A Associação Brasileira de Franchising informou que o franchising brasileiro reunia 1,762 milhão de empregos diretos em 2025, alta de 2,5% sobre o ano anterior.3 É base autodeclarada pelas associadas, cobre todo o franchising e não separa contrato com carteira assinada de contrato com pessoa jurídica. Serve como escala do modelo de franquia no país. Não serve, em nenhuma leitura, como prova de que o instrutor de Pilates foi contratado.
Dessas mesmas páginas comerciais sai um dado que interessa mais que a contagem. A The Pilates Studio Brasil declara mais de 1.200 profissionais formados pelo próprio programa de qualificação.5 A rede que depois recebe o instrutor no estúdio é, no mesmo movimento, a rede que o formou. Isso é um elo do arranjo de trabalho, e não um número de mercado.
O padrão que vende a rede é o mesmo que aperta a classificação
A lógica interna da coisa aparece com clareza em um texto escrito para o lado de quem contrata. Christina G. Cordoza, do escritório Littler, descreve o motivo pelo qual estúdios classificam instrutores como autônomos nos Estados Unidos, reduzir encargo e manter o controle da marca, e aponta que é exatamente esse controle que fragiliza a classificação. Exigir uniforme de marca e especificar equipamento e método, segundo ela, contradiz a autonomia alegada.8
Ela registra ainda que o teste ABC vigora em mais de trinta estados americanos, entre eles Califórnia, Connecticut, Nova Jersey e Massachusetts, e que o critério mais difícil de satisfazer é o que exige que o trabalho contratado esteja fora do curso normal do negócio de quem contrata.8 Um estúdio de Pilates que contrata alguém para dar aula de Pilates tem um problema visível com esse critério. Nada disso vale por aqui, onde o teste é o do artigo 3º da CLT, e comparar os dois sistemas exigiria uma apuração que esta matéria não fez.
O que atravessa a fronteira não é a regra, é a observação. O padrão de marca é a razão de existir da franquia, porque é ele que garante que a aula seja reconhecível em qualquer endereço. E é o mesmo padrão que aproxima quem dá a aula da condição de subordinado.
O trabalho que fica fora da hora de aula
Sara H. Jodka, sócia do escritório Dickinson Wright, escreveu em 2026 um texto dirigido a profissionais de recursos humanos sobre risco de jornada e salário no fitness boutique americano. A parte mais transportável dele não envolve dinheiro. O pagamento por aula cobre os quarenta e cinco a sessenta minutos da sessão e deixa de fora trabalho que continua existindo, montar o treino, montar a playlist, responder mensagem de aluno, divulgar em rede social e comparecer a reunião obrigatória de equipe.7
O mesmo texto lista uma série de acordos fechados em ações sobre jornada e salário movidas contra academias e estúdios americanos, alguns deles na casa dos milhões de dólares.7 Duas ressalvas precisam andar coladas nesses valores. São os Estados Unidos, com regra própria e jurisdição própria. E acordo encerra disputa sem reconhecimento de culpa, o que quer dizer que nenhum desses valores afirma que alguém fez algo errado. O que eles indicam é que o método de pagamento por aula já foi discutido em juízo naquele país, e que a autora o trata como risco a ser administrado por quem contrata.
O que o volume de aula cobra do corpo
Do outro lado dessa conta existe uma medida, e ela é portuguesa. Um estudo publicado em 2024 na revista Healthcare mediu problema de saúde relacionado ao trabalho em instrutores de fitness de Portugal. Cerca de um terço relatou pelo menos um, predominantemente musculoesquelético, com lesão muscular em 32,2% e problema de joelho em 15,3%. Os autores relatam associação estatística entre a ocorrência e o número de dias trabalhados por semana (p = 0,039) e o número de horas trabalhadas por dia (p = 0,013).9
Associação não é causa, e o desenho é transversal, o que significa que ele fotografa um momento em vez de acompanhar o trabalhador ao longo do tempo. É Portugal, e é fitness inteiro. A leitura que os fatos permitem é estreita e ainda assim vale. Quem é pago por aula dada tem na quantidade de aulas a sua variável de renda, e a quantidade de aulas é a variável associada ao problema de saúde relatado no estudo.
Um paralelo internacional ajuda a enxergar o mecanismo, e ele precisa vir com o carimbo de onde saiu. Um estudo qualitativo publicado em 2026 na BMC Public Health acompanhou, entre 2022 e 2024, seis estabelecimentos comerciais de uma cidade média chinesa, ouvindo 42 pessoas entre personal trainers, operadores e consumidores. A remuneração descrita tem três componentes, salário base, comissão sobre venda de pacotes de aula e valor por hora de treino, com o salário base tipicamente próximo ou pouco acima do mínimo local. Os pesquisadores registram evasão de contrato formal e de seguro social como prática corrente, com um operador declarando que pagar seguro social a todo instrutor novo tornaria o custo de mão de obra alto demais. E registram o deslocamento do centro do trabalho, da competência técnica para a venda.10
É a China, com regulação própria e mercado próprio, e nada disso descreve o Brasil. O que o caso mostra é a direção que o arranjo toma quando corre solto. O instrutor fica dentro da estrutura da rede e fora da proteção dela.

A única série aberta aponta para o outro lado
Aqui a matéria precisa desmontar a própria hipótese de partida. A ideia de que a rede transformou o instrutor autônomo em funcionário é intuitiva e não tem série que a sustente. A única estatística ocupacional aberta e verificada que esta apuração alcançou é dos Estados Unidos, do Bureau of Labor Statistics, e ela aponta na direção contrária. Em 2025, 55% dos instrutores e treinadores de fitness americanos trabalhavam em centros de fitness e recreação, 15% eram autônomos, 8% estavam em organizações cívicas e sociais, 7% em serviços educacionais e 4% no governo. A categoria somava 388,4 mil postos, com projeção de crescimento de 7% até 2035.6
A categoria já era majoritariamente empregada por estabelecimento antes de qualquer virada. É série dos Estados Unidos, cobre fitness inteiro, não separa Pilates, e não existe equivalente brasileiro aberto que esta apuração tenha conseguido abrir. Existe uma série do Reino Unido descrevendo mudança de vínculo no setor, e ela não entra aqui porque o artigo não pôde ser lido. Um número de crescimento atribuído a essa série apareceu em resumo de busca, e ele fica fora deste texto pelo mesmo motivo. Número que não foi lido na fonte não é número.
Aqui o critério é outro, e ele está suspenso
No Brasil o teste é o do artigo 3º da CLT, e o que existe de concreto são decisões caso a caso. O Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região reconheceu vínculo de emprego entre um personal trainer e uma academia, em processo julgado pela 10ª Turma com relatoria da desembargadora Denise Pacheco. Pesaram na decisão a exigência legal de profissional de educação física presente em tempo integral, o que fez da presença do trabalhador condição de funcionamento do estabelecimento, o testemunho de alunos de que ele era o único instrutor do turno da manhã, o crachá que o identificava como professor e um documento da própria academia atestando a condição de empregado.11
Um detalhe dessa decisão viaja bem para o estúdio de Pilates. O tribunal registrou que o aluno pagar diretamente ao instrutor não configura, por si só, trabalho autônomo, quando essa forma de pagamento foi imposta pelo estabelecimento.11 É o arranjo mais comum em estúdio pequeno. E é uma decisão daquele caso, de academia, de turma regional, sem força de regra geral para o setor.
Há ainda uma trava que é só brasileira, e ela mexe em quem pode ser contratado. Em 2024, a Justiça Federal em São Paulo indeferiu liminar a uma instrutora sem formação superior em fisioterapia ou educação física, e o entendimento registrado é que ministrar Pilates exige uma dessas duas formações, com certificação em Pilates isoladamente não bastando. A decisão é liminar, de primeira instância, em caso individual, e foi divulgada pelo conselho profissional que é parte interessada na reserva de mercado da categoria.12 Vale como critério aplicado ali, não como regra do país. Caso esse entendimento se firme, ele encolhe o universo de quem a rede pode contratar, e mexe ao mesmo tempo no preço do instrutor e na força que ele tem para negociar.
O que decide o resto está parado. O Supremo Tribunal Federal reconheceu repercussão geral no Tema 1389, que trata da competência da Justiça do Trabalho quando se alega fraude em contrato civil ou comercial de prestação de serviço, da licitude da contratação de pessoa jurídica ou de trabalhador autônomo para essa finalidade, e da distribuição do ônus da prova. O processo paradigma é o ARE 1.532.603, com relatoria do ministro Gilmar Mendes.1314 Um grupo de pesquisa da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília registra suspensão nacional determinada em 14 de abril de 2025 e um volume de 224.350 processos suspensos até agosto do mesmo ano, número atribuído ao Tribunal Superior do Trabalho.13 O portal da Confederação Nacional da Indústria registra decisão de suspensão com publicação no Diário da Justiça Eletrônico em 7 de julho de 2026.14 As duas fontes descrevem o mesmo tema e trazem datas diferentes, o que sugere decisões distintas dentro dele, e este texto não fundiu as duas porque não abriu o andamento processual para conferir.
As duas fontes também não são neutras, e é por isso que estão as duas aqui. Uma é pesquisa universitária com posição declaradamente crítica à pejotização. A outra é o portal de uma confederação patronal, com posição favorável à validação da contratação por pessoa jurídica. Sobre o fato processual elas concordam. O tema está em julgamento, e ninguém sabe onde ele termina.
O que sobra para quem paga a aula
Falta a ponta que o aluno enxerga, e ela é a mesma peça vista de frente. O que a rede vende é previsibilidade. A aula é reconhecível em qualquer endereço porque método, equipamento e sequência estão especificados antes de qualquer instrutor entrar na sala. É uma promessa, e ela funciona.
A leitura que os fatos permitem é que a mesma especificação que entrega previsibilidade ao aluno retira do instrutor a autoria da aula. Ele executa um desenho que não é dele, com equipamento que não escolheu, às vezes com formação dada pela própria rede.5 Do lado jurídico, esse conjunto é justamente o que advogados do lado de quem contrata apontam como o que enfraquece a alegação de autonomia.8 Do lado do aluno, é o que garante que a aula de terça seja igual à de quinta.
É a mesma frase, lida de dois lugares. Enquanto o Tema 1389 não é julgado, os dois lados dela continuam valendo ao mesmo tempo.
1. Xponential Fitness, Inc. Formulário 10-K, relatório anual do exercício encerrado em 31 de dezembro de 2021, arquivado na Securities and Exchange Commission.
Registro regulatório obrigatório em que a empresa descreve a estrutura do próprio modelo de franquia, usado aqui pela descrição da estrutura e não por contagem de unidades.
2. International Franchise Association. Industry Spotlight, Health & Wellness, 2025, com dados de FRANdata.
Panorama do franchising de saúde e bem estar publicado pela entidade que representa franqueadores, com números de uma empresa que vende dados ao mesmo público.
3. Associação Brasileira de Franchising. Desempenho do franchising brasileiro, dados de referência 2025, divulgação de 2026.
Agregado autodeclarado pelas redes associadas, usado aqui apenas pelo número de empregos diretos do franchising como um todo.
4. Pure Pilates. Página comercial de venda de franquia.
Material de captação de franqueado, sem data de atualização declarada, usado como declaração da própria rede sobre o número de unidades.
5. The Pilates Studio Brasil. Página comercial de franquia.
Material da franqueadora, usado como declaração da própria rede sobre unidades e sobre o volume de profissionais formados pelo programa de qualificação da casa.
6. U.S. Bureau of Labor Statistics. Occupational Outlook Handbook, fitness trainers and instructors, dados de referência 2025.
Estatística ocupacional pública federal americana, única série aberta deste levantamento sobre distribuição de vínculo na categoria.
7. Jodka SH. Per class, per session, per lawsuit. Wage and hour risks in boutique fitness. Publicação do escritório Dickinson Wright, 2026.
Texto de advogada que atua para o lado empregador, dirigido a profissionais de recursos humanos, usado pela descrição do trabalho não coberto pelo pagamento por aula.
8. Cordoza CG. Dear Littler, what misclassification issues are there in the workout place. Publicação do escritório Littler, 2026.
Análise de escritório de defesa do empregador sobre classificação de instrutores nos Estados Unidos, usada pelo raciocínio sobre controle de marca e teste ABC.
9. Ferreira RM, Fernandes LG, Franco S, Simões V, Sampaio AR. Work-related health problems in fitness instructors. Healthcare (Basel), 2024.
Estudo transversal com instrutores de fitness portugueses, usado pelas prevalências relatadas e pelas associações com dias e horas de trabalho.
10. Xie Z, Duan Z. Market-oriented fitness instruction. BMC Public Health, 2026.
Estudo qualitativo em seis estabelecimentos comerciais de uma cidade média chinesa, usado como paralelo internacional declarado sobre remuneração e formalização.
11. Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região. Notícia institucional sobre o processo 0000532-50.2010.5.04.0304, julgado pela 10ª Turma, 2011.
Decisão de caso concreto que reconheceu vínculo de emprego entre personal trainer e academia, usada como ilustração de critério e não como regra do setor.
12. Conselho Regional de Educação Física da 12ª Região. Divulgação sobre o processo 5009123-08.2024.4.03.6100, 9ª Vara Cível Federal de São Paulo, 2024.
Versão do conselho profissional sobre decisão liminar de primeira instância a respeito de quem pode ministrar Pilates no Brasil.
13. Cantanhêde G, Coelho IB, Soares JV, Scandiuzzi J, Dutra R, Lima R. Pejotização, cinco reflexões sobre o Tema de Repercussão Geral 1389 do STF. Grupo de pesquisa Informais, Faculdade de Direito da Universidade de Brasília, 2025.
Leitura acadêmica com posição crítica à pejotização, usada aqui apenas pelo fato processual e pelo volume de processos suspensos atribuído ao Tribunal Superior do Trabalho.
14. Conexão Trabalho, portal da Confederação Nacional da Indústria. Tema 1389, ministro do STF suspende execução baseada em decisão sobre pejotização.
Leitura da confederação patronal sobre o mesmo processo, publicada aqui lado a lado com a anterior como contraponto declarado.
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