
A matéria de abertura desta edição contou de onde veio o método, o homem, a palavra Contrologia e a ideia de controle no centro de tudo. Este ensaio começa onde aquela parou, no ponto em que o criador sai de cena e o método precisa sobreviver sem ele. É a história de como a Contrologia de um estúdio em Nova York virou o Pilates do mundo inteiro, e por que, no caminho, se partiu em escolas que até hoje discutem qual delas guarda a coisa verdadeira.
Um método sem herdeiro único
Joseph Pilates morreu em 1967, aos 83 anos, e o que deixou foi frágil3. Não havia sistema de certificação, não havia manual de formação de professores, não havia uma escola-mãe nem um sucessor oficial. Havia um estúdio, havia a esposa Clara, que a própria fundação que preserva a memória do método descreve como a verdadeira professora da casa, aquela que de fato passava o trabalho aos aprendizes, e havia um punhado de alunos que tinham aprendido na fonte3. Clara seguiu à frente do estúdio, e a aluna Romana Kryzanowska, que Joseph formara décadas antes, tornou-se a figura de continuidade do trabalho original e, com o tempo, a principal guardiã do que passaria a se chamar Pilates clássico4. Convém uma palavra de cuidado aqui, porque a cultura do método adora a linguagem de herança. Romana não herdou o Pilates como quem herda uma empresa, ela se tornou a guardiã de uma linha, e outros alunos carregaram o método com a mesma legitimidade, cada um por conta própria. Foi justamente essa ausência de herdeiro único, o método passado de pessoa para pessoa e não de instituição para instituição, que fez o Pilates se ramificar em vez de permanecer uma coisa só.
Os que carregaram o método
A primeira geração de professores formados diretamente por Joseph e Clara ficou conhecida como os Pilates Elders, os anciãos do método. São os alunos que aprenderam na fonte e depois abriram seus próprios estúdios, formando a geração seguinte. Entre os mais citados estão Romana Kryzanowska, Ron Fletcher, Kathy Stanford Grant, Eve Gentry, Carola Trier, Lolita San Miguel, Jay Grimes e Mary Bowen, e vale dizer de saída que não existe uma lista oficial fechada, conforme a fonte o número vai de oito a dezesseis nomes3. Dois fatos merecem destaque. O primeiro, segundo os registros do método, apenas duas pessoas foram formalmente certificadas para ensinar pelo próprio Joseph, Kathy Grant e Lolita San Miguel, que receberam o certificado através da State University of New York em 1967, o ano da morte dele6. O segundo, Kathy Grant era uma mulher negra num campo e numa época quase inteiramente brancos, e mais tarde levou o método para a universidade, ensinando na Tisch School of the Arts da NYU a partir de 1988, um dado que a história oficial do método demorou a reconhecer5.
Cada elder deu ao método um sotaque. Ron Fletcher, bailarino da companhia de Martha Graham, procurou Joseph por causa de uma lesão de joelho e em 1972 abriu em Beverly Hills o primeiro estúdio da Costa Oeste, levando o Pilates para Hollywood e criando um trabalho próprio de respiração e movimento7. Eve Gentry desenvolveu uma abordagem mais terapêutica e adaptativa, raiz de boa parte do que hoje se faz com quem chega machucado ou fragilizado7. San Miguel segue ativa até hoje, liderando um programa internacional de mentoria que forma professores mundo afora6. Não foram discípulos idênticos repetindo uma cartilha, foram intérpretes, e é aí que a árvore começa a se abrir.
O método vira uma árvore
Cada elder que abriu um estúdio virou o tronco de um galho. O método se espalhou não como franquia coordenada, mas como diáspora, professores formando professores que formavam professores, cada geração levando o Pilates para uma cidade e um público novo. Com o tempo essa ramificação ganhou nomes, as linhagens e escolas de formação que um praticante encontra hoje ao procurar onde estudar. Do lado que se entende como continuador fiel estão nomes como Romana’s Pilates, The Pilates Center de Boulder, fundado por alunas de Romana, e o Vintage Pilates de Jay Grimes7. Do lado que assumiu a evolução como método estão escolas como a STOTT, criada em 1988 por Lindsay e Moira Merrithew em Toronto com ênfase em alinhamento e biomecânica moderna8, a BASI de Rael Isacowitz, de 1989, a Polestar do fisioterapeuta Brent Anderson, do começo dos anos 1990, e a Balanced Body, que é ao mesmo tempo a maior fabricante de aparelhos e uma provedora de formação7. Há um detalhe genealógico que ilumina tudo, vários fundadores contemporâneos, Isacowitz e Moira Merrithew entre eles, foram formados por elders da linha clássica7. A evolução do método nasceu de dentro da tradição, não contra ela.

A família que discute
Foi dessa ramificação que brotou a grande tensão cultural do Pilates, viva até hoje. De um lado o Pilates clássico, ou purista, que entende o método como um patrimônio a preservar, o repertório original, a ordem exata dos exercícios em que um prepara o corpo para o seguinte, e o desenho de aparelho como Joseph os deixou. De outro o Pilates contemporâneo, que entende o método como um corpo vivo a evoluir, com sequências adaptadas ao aluno, anatomia e biomecânica atuais, pelve neutra no lugar da báscula posterior clássica, e aparelhos com molas e cordas ajustáveis9. As diferenças são concretas e verificáveis, a ordem dos exercícios, a posição da pelve e o uso do equipamento mudam de um lado para o outro9. Aqui esta revista assume que fala com voz própria, porque o significado dessa cisão é leitura, não fato. E a leitura honesta é que cada lado preserva algo precioso e arrisca algo. O clássico preserva a inteligência interna do método, a ordem não é capricho, é pedagogia, mas arrisca virar museu, fechado à ciência que o próprio Joseph, autodidata e experimentador, talvez tivesse abraçado. O contemporâneo preserva a relevância e a segurança para corpos que Joseph quase não atendeu, o idoso com osteoporose, o lombálgico, a gestante, mas arrisca diluir o método a ponto de Pilates virar rótulo para qualquer coisa feita num Reformer.
Existe uma nuance que desarma boa parte da briga, e ela vem da fonte. A própria fundação-guardiã atribui a Clara Pilates a origem da tradição de adaptar o método às necessidades de cada aluno3. Se o dado é esse, a conclusão que esta revista tira é que personalizar não é traição da tradição, é parte dela, porque começou dentro do primeiro estúdio, com quem mais ensinava lá. Isso não apaga o valor do purismo, apenas tira da discussão o tom de guerra. Clássico e contemporâneo não são dois métodos rivais, são dois jeitos de cuidar da mesma herança, e a maturidade de quem vive o método é conseguir aprender com os dois.
A decisão que libertou o nome
O evento que selou a cultura do método não aconteceu num estúdio, aconteceu num tribunal. Ao longo dos anos 1990, Sean Gallagher, dono de um estúdio em Manhattan e de marcas registradas sobre a palavra Pilates, processava instrutores e fabricantes que usavam o nome sem licença. O caso decisivo o opôs ao fabricante de aparelhos ligado a Ken Endelman, da Balanced Body. Em 19 de outubro de 2000, num parecer de 93 páginas ao fim de quatro anos de litígio, a juíza federal Miriam Cedarbaum declarou inválidas as marcas de Gallagher1. Pilates, decidiu a corte, é um termo genérico, o nome de um método de exercício como ioga ou caratê, e por isso ninguém pode monopolizá-lo1. A juíza ainda concluiu que Gallagher cometera fraude ao registrar a marca dos equipamentos, enganando o escritório de patentes2. Vale a precisão, quem moveu a ação e perdeu foi Gallagher, com a sua Pilates, Inc., e quem venceu foram os réus ligados à Balanced Body, um ponto que a versão contada de boca em boca costuma inverter10. A partir dali, qualquer pessoa passou a poder usar a palavra Pilates para descrever o que ensina.
Um método que coube a todos
A decisão de 2000 apenas reconheceu, no papel, o que a cultura já vivia desde 1967. O método nunca teve dono depois de Joseph, ele foi carregado por muitas mãos, e cada mão o entregou um pouco diferente. Joseph Pilates morreu sem deixar herdeiro, e talvez tenha sido essa a herança, um método que, por não pertencer a ninguém, coube a todos. Para quem vive o Pilates por dentro, saber ler essa árvore não é curiosidade de historiador, é o que dá sentido à paisagem. Explica por que o estúdio da esquina ensina diferente do outro, por que uma formação discute pelve neutra e a vizinha não, e por que o nome na fachada não garante mais nada sozinho. O que garante é o mesmo que atravessa esta edição inteira, o controle levado a sério, a formação levada a sério e o respeito ao que o método tem de inteligente, venha ele da ordem clássica ou da adaptação contemporânea. A linhagem não é uma senha de pureza, é uma memória, e quem conhece a própria memória ensina melhor.