Mercado de Pilates, o número de estúdios parou de crescer antes da receita

Mulher em flexão de tronco sobre um aparelho de madeira em estúdio de Pilates de paredes verdes, com barra de parede, barril e outros aparelhos ao redor

Dois números da mesma página contam histórias opostas, e é a leitura conjunta deles que interessa. Na página pública da IBISWorld sobre estúdios de Pilates e ioga nos Estados Unidos, atualizada em fevereiro de 2026, a receita do setor cresceu em média 11,1% ao ano entre 2021 e 2026. No mesmo intervalo, o número de negócios cresceu 0,0%. São 37.317 casas hoje, praticamente as mesmas de cinco anos atrás, faturando muito mais.

E aí vem o terceiro número, que muda o clima. A receita do setor está em 19,2 bilhões de dólares em 2026, o mesmo valor de 2025, ano em que a página registra queda de 2,0%. Ou seja, o crescimento médio de 11,1% ao ano descreve um período que já terminou. A curva subiu forte, depois recuou um pouco, depois ficou parada.

O que isso significa para quem tem estúdio

Um mercado que ganha receita sem ganhar casas é um mercado que aprendeu a extrair mais de cada aluno, por preço, por frequência ou por serviço vendido junto. Isso funciona por um tempo e tem teto. Quando a receita também para, como parou agora, a fase seguinte não é abrir mais unidade, é disputar o aluno que já está circulando. Retenção, preço por aula, ocupação de horário morto e custo de aquisição passam a decidir quem fica, e eles decidem antes que o setor perceba, porque o número agregado demora a mostrar.

Sobre o Brasil, o número que mais circula precisa de uma etiqueta. A imprensa noticiou em 2025 um crescimento de 277,6% nas aulas de Pilates entre 2019 e 2024, colocando a modalidade em segundo lugar atrás da musculação. O dado vem dos check-ins registrados na Wellhub, que é uma plataforma de benefício corporativo. Isso não é o número de praticantes do país, é o comportamento de quem usa um aplicativo pago pela empresa onde trabalha. Cresce junto a adesão da própria plataforma, a oferta de estúdios credenciados e o hábito de fazer check-in, e nada disso é separável no número divulgado.

Há um detalhe que quase ninguém checa. O relatório público de tendências da própria Wellhub, de dezembro de 2024, analisa mais de 500 milhões de check-ins de mais de três milhões de assinantes em 20 mil empresas e dez países, e não traz o número do Pilates. Ele ranqueia musculação em primeiro e destaca crescimentos de 7% para ioga, 112% para nutrição e 71% para hábitos saudáveis. O 277,6% circula pela imprensa e não aparece no documento público da plataforma, o que não o torna falso, mas o deixa sem uma página onde possa ser conferido linha a linha.

A mesma etiqueta vale para a estatística mais reproduzida do setor, a de que 77% dos estúdios estão em crescimento e 67% operam com aula esgotada. Ela sai de uma pesquisa on-line com 800 instrutores no mundo, feita entre 23 de outubro e 6 de novembro de 2024 e divulgada em janeiro de 2025 pela Balanced Body, que fabrica e vende aparelho de Pilates. É percepção autodeclarada de instrutor, não é auditoria de faturamento, e quem encomendou tem interesse direto no resultado. Nada disso invalida a pesquisa. Só define o que ela pesa numa decisão de investimento.

O contraste entre as três fontes é, no fim, a informação mais útil. O dado mais frio, que é receita de setor medida por firma de pesquisa de mercado, mostra estagnação. Os dados mais quentes, que são check-in de plataforma e percepção de instrutor, mostram expansão. Não há contradição obrigatória entre eles, porque medem coisas diferentes em lugares diferentes. Mas quem for montar orçamento para 2027 faz melhor apoiando a projeção no primeiro e usando os outros dois como sinal de humor do mercado, e não como base de conta.

Perguntas frequentes

O mercado de Pilates está caindo? Nos Estados Unidos, a receita do setor de estúdios de Pilates e ioga ficou parada em 19,2 bilhões de dólares entre 2025 e 2026, com queda de 2,0% registrada em 2025. Parado não é o mesmo que em queda livre, e o dado é americano, não brasileiro.

E no Brasil? Não existe, entre as fontes usadas nesta matéria, um número público de receita do setor brasileiro que possa ser conferido. O que circula é crescimento de check-in numa plataforma de benefício corporativo.

O que é CAGR? É a taxa de crescimento médio por ano ao longo de um período, calculada como se o crescimento tivesse sido igual todos os anos. Ela suaviza a curva, e por isso pode esconder um ano forte seguido de um ano parado, que é exatamente o que acontece aqui.

Fontes

Tábata Moraes
Redatora · PILATES ARCHIVE