Pilates na menopausa, os dois sintomas que os ensaios não conseguiram mover

Mulher de cabelos grisalhos agachada sobre o piso de madeira de uma sala clara, desenrolando um tapete de exercício diante de janelas amplas

Em um estudo, o número mais informativo raramente é o maior. É o zero. Dois ensaios controlados publicados em 2026, feitos por equipes diferentes, com desenhos diferentes e perguntas ligeiramente diferentes, mediram o efeito do Pilates em mulheres na pós-menopausa. Os dois encontraram melhora consistente em várias frentes. E os dois esbarraram no mesmo lugar.

O primeiro saiu no International Urogynecology Journal [1]. Quarenta mulheres na pós-menopausa foram divididas em dois grupos, um que fez Pilates on-line duas vezes por semana durante seis semanas e um de comparação. As participantes foram avaliadas pela escala de avaliação da menopausa, pela escala de qualidade de vida na menopausa, pelo inventário de depressão de Beck e pelo inventário de ansiedade estado e traço. O que se moveu, moveu bastante.

Na escala de sintomas, o grupo do Pilates ficou 3,30 pontos melhor que o de comparação na parte somática, 2,52 pontos melhor na parte psicológica e 6,09 pontos melhor no total, com valores de p abaixo de 0,001 nos dois primeiros extremos e de 0,0009 no psicológico. Na escala de qualidade de vida, a diferença foi de 2,52 pontos na dimensão vasomotora, aquela dos calores e suores, de 1,52 na psicossocial, de 9,15 na física e de 13,29 no total. A ansiedade de estado caiu 2,79 pontos a mais que no grupo de comparação. Todos esses resultados vêm com intervalo de confiança de 95% que não encosta no zero, o que quer dizer que a diferença encontrada é consistente dentro do estudo.

E o que não se moveu

Duas coisas. A primeira é a dimensão urogenital da escala de sintomas, e o resultado é literalmente zero, com valor de p igual a 1,000. Não é um efeito pequeno, não é um efeito de tamanho incerto, é a ausência completa de diferença entre quem praticou e quem não praticou. A segunda é a dimensão sexual da escala de qualidade de vida, com diferença de 0,11 ponto e valor de p de 0,151, ou seja, indistinguível do acaso dentro deste estudo.

Um resultado nulo isolado não vale muito, porque estudo pequeno erra em qualquer direção. O que dá peso a este é o segundo ensaio. Publicado no BJOG em março de 2026, ele comparou Pilates clínico com exercício aeróbico em trinta mulheres na pós-menopausa, quinze em cada grupo, duas vezes por semana durante oito semanas, em sessões de quarenta minutos, num centro de vida saudável em Bitlis, na Turquia [2]. E ali, de novo, os autores registram que a mudança em sintomas urogenitais foi mínima nos dois grupos.

Duas equipes, dois desenhos, duas populações, o mesmo ponto cego. Isso ainda não é prova de nada, porque dois estudos pequenos continuam sendo dois estudos pequenos. Mas é o tipo de convergência que merece ser dita em voz alta, principalmente porque ela contraria o que boa parte da comunicação comercial sugere quando fala de Pilates e menopausa.

O que o segundo ensaio realmente concluiu

Vale ler o ensaio do BJOG com cuidado, porque ele é frequentemente resumido de um jeito que ele não autoriza. O desfecho principal era a gravidade dos sintomas da menopausa. Os desfechos secundários eram qualidade de sono, gravidade de sintomas depressivos e qualidade de vida ligada à saúde. Os dois grupos melhoraram em sintomas depressivos, em qualidade de sono e em vários domínios de qualidade de vida.

E então vem a frase que decide a leitura. Não houve diferença significativa entre os grupos em nenhum dos desfechos, nem no principal nem nos secundários. A análise de tamanho de efeito apontou redução maior de sintomas da menopausa no grupo do Pilates, e melhora comparável em depressão e sono. Os autores concluem que a escolha do exercício pode ser guiada por preferência e acessibilidade, e que ensaios maiores e mais longos são necessários. O registro do estudo é NCT05764031.

Há ainda uma ressalva de partida que os autores registram e que muda a leitura. As características iniciais dos dois grupos eram comparáveis, com uma exceção, o índice de massa corporal era significativamente maior no grupo do Pilates clínico. Quando um grupo começa diferente do outro numa variável que se relaciona com sintoma de menopausa, com qualidade de sono e com disposição para exercício, qualquer comparação entre os dois carrega essa diferença junto. Com quinze pessoas por braço, o sorteio simplesmente não teve material suficiente para equilibrar tudo, e é assim mesmo que ensaios pequenos se comportam. Os autores dizem isso abertamente, o que é o comportamento correto, e é mais uma razão para ler o estudo como sinal e não como veredito.

Traduzindo para a prática do estúdio, o que este ensaio sustenta não é que o Pilates seja superior ao exercício aeróbico na menopausa. É que ele não foi inferior, num estudo pequeno demais para separar os dois. Para quem atende essa mulher, isso é uma notícia melhor do que parece, porque desloca o argumento de venda do lugar frágil, que é a superioridade inventada, para o lugar sólido, que é a adesão. O exercício que a pessoa consegue manter é o que funciona, e quem passa por sintoma vasomotor, dor articular e sono ruim tem motivos concretos para preferir uma modalidade a outra.

O osso, e o cuidado que ele exige

Existe uma segunda promessa que costuma aparecer junto, a de densidade óssea. Aqui a matéria não traz número, porque nenhum dos dois ensaios acima mediu osso. O que existe é leitura de síntese, e ela merece ser reproduzida com a atribuição correta. Material de divulgação do McMaster Optimal Aging Portal, de julho de 2026, argumenta que o Pilates contribui para a saúde óssea depois da menopausa como parte de uma rotina mais ampla, e que ele não é, sozinho, a forma mais eficaz de construir ou proteger densidade óssea, papel em que a evidência mais forte favorece a combinação de exercício resistido com impacto [3].

Isso não rebaixa o método. O mesmo material aponta que o Pilates conta como exercício de fortalecimento muscular e sustenta força, equilíbrio e postura, que é o caminho pelo qual se previne a queda que provoca a fratura. É um papel diferente do que a comunicação costuma anunciar, e é um papel real. Prometer densidade óssea onde a evidência oferece prevenção de queda é trocar um argumento verdadeiro por um argumento frágil, sem ganhar nada com a troca.

O tamanho de tudo isso

Quarenta participantes num ensaio e trinta no outro. Seis semanas de intervenção num, oito no outro. Nenhum acompanhamento depois do fim do programa. Nenhum dos dois é grande o bastante para virar recomendação, e os próprios autores do segundo pedem ensaios maiores e mais longos. Toda a leitura acima é o que esses dois estudos permitem afirmar sobre as mulheres que participaram deles, e nada além.

Ainda assim, há uma coisa aqui que vale mais do que o tamanho da amostra, e é o hábito de olhar para os resultados nulos. Uma publicação que só conta o que melhorou entrega uma metade. A parte que muda decisão, para quem escreve um site de estúdio ou responde a pergunta de uma aluna de cinquenta e três anos, é saber que existem dois sintomas específicos sobre os quais a evidência disponível hoje não autoriza nenhuma promessa. Dizer isso não afasta a aluna. Dizer o contrário é que a perde, seis semanas depois.

Perguntas frequentes

Pilates ajuda nos calores da menopausa? No ensaio do International Urogynecology Journal, a dimensão vasomotora da qualidade de vida melhorou 2,52 pontos em relação ao grupo de comparação, com valor de p abaixo de 0,001. É um resultado positivo, medido em quarenta mulheres ao longo de seis semanas.

E para sintomas urogenitais e função sexual? Não houve diferença. Num dos ensaios, o valor de p do sintoma urogenital foi 1,000, e o da dimensão sexual foi 0,151. No outro, os autores descrevem a mudança urogenital como mínima nos dois grupos.

Pilates ou caminhada? O ensaio do BJOG não encontrou diferença significativa entre Pilates clínico e exercício aeróbico em nenhum desfecho, e os autores sugerem escolher por preferência e acessibilidade.

O que é a escala de avaliação da menopausa? É um questionário padronizado que separa os sintomas em três grupos, somáticos, psicológicos e urogenitais, e dá uma nota a cada um. Ele é usado justamente para comparar antes e depois de uma intervenção, e é o que permite dizer que uma parte melhorou e a outra não.

Serve como tratamento? Não é assim que estes estudos foram desenhados. Eles medem mudança em escalas de sintoma e de qualidade de vida ao longo de poucas semanas. Conduta clínica na menopausa é decisão de quem faz o acompanhamento médico.

Fontes

Laura Montenegro
Redatora Editorial · PILATES ARCHIVE