Pilates custa quanto ao sistema de saúde, a conta brasileira

Mãos de um profissional de saúde guiando os braços de uma paciente que segura uma faixa elástica, com um cartaz de anatomia ao fundo

Uma avaliação econômica publicada na BMC Musculoskeletal Disorders em 2026 fez a pergunta que quase nunca aparece na conversa do setor, quanto custa cada unidade de melhora. O estudo veio acoplado a um ensaio randomizado brasileiro com 145 participantes de 18 a 50 anos, com dor lombar por 12 semanas ou mais, divididos entre 72 num programa de Pilates de solo com acessórios, supervisionado por fisioterapeutas, e 73 em exercícios domiciliares, os dois grupos com duas sessões por semana durante seis semanas e acompanhamento de seis meses. Na perspectiva do sistema de saúde, cada unidade de dor reduzida custou 4 dólares a mais, cada unidade de incapacidade custou 1 dólar a mais e cada ano de vida ajustado por qualidade ganho custou 61 dólares a mais que o exercício em casa.

Na perspectiva da sociedade, o sinal se inverte. Em vez de custo adicional, os autores encontraram economia de 295 dólares por unidade de dor reduzida, 65 dólares por unidade de incapacidade e 4.293 dólares por ano de vida ajustado por qualidade ganho. Esse contraste entre as duas perspectivas não é detalhe técnico, é o coração do achado, e vale entender por que os mesmos dados produzem números tão diferentes.

Por que a mesma intervenção custa e economiza ao mesmo tempo?

Porque as duas perspectivas contam bolsos diferentes. A perspectiva do sistema de saúde soma o que o serviço gasta, sala, profissional, equipamento, consulta, exame. A perspectiva da sociedade soma tudo isso e acrescenta o que o problema custa fora do serviço, principalmente o trabalho perdido, o dia sem produzir e o custo de quem cuida. Quando uma intervenção devolve a pessoa mais rápido à vida normal, ela pode custar mais ao serviço e sair mais barata para o conjunto. Foi isso que o estudo encontrou.

Ano de vida ajustado por qualidade é a medida que combina quanto tempo alguém vive com a qualidade desse tempo, numa escala em que um ano em saúde plena vale um. É a unidade que permite comparar intervenções de áreas diferentes, um remédio para pressão alta e um programa de exercício, por exemplo. E limiar de disposição a pagar é o valor máximo que um sistema aceita gastar para ganhar um desses anos. O estudo usa o limiar brasileiro que declara, 15.500 dólares, equivalentes a R$ 40.000 no texto do artigo.

Diante desse limiar, o resultado é claro. Sessenta e um dólares por ano de vida ajustado por qualidade é um valor irrisório perto de 15.500. O estudo conclui que o Pilates foi custo-efetivo nas duas perspectivas comparado ao exercício domiciliar, e gerador de economia na perspectiva da sociedade. As análises de sensibilidade, que testam se o resultado se mantém quando as premissas mudam, ficaram consistentes com o achado principal.

Vale saber com que régua os desfechos foram medidos, porque avaliação econômica é exatamente a arte de transformar melhora clínica em número comparável. A dor foi medida por escala numérica, aquela em que a pessoa aponta de zero a dez o quanto dói. A incapacidade foi medida pela escala de Quebec para dor lombar, que pergunta o quanto a dor atrapalha tarefas concretas do dia. E a qualidade de vida veio do questionário EQ-5D-3L, que é o instrumento que alimenta o cálculo do ano de vida ajustado por qualidade. Os três foram aplicados no início, no fim das seis semanas e seis meses depois, e os custos foram levantados nos mesmos momentos.

E por que ele não está no sistema público?

Essa é a informação de contexto que os próprios autores colocam logo na abertura do artigo. O Ministério da Saúde recomenda terapias por exercício para dor lombar crônica, e algumas dessas terapias, entre elas o Pilates, ainda não são cobertas pelo sistema público brasileiro. A frase é dos autores, e ela explica por que o estudo foi feito. Evidência de custo-efetividade em contexto brasileiro é escassa, e sem ela nenhuma discussão de incorporação sai do lugar.

Aqui é preciso separar duas coisas que costumam ser confundidas. Demonstrar que uma intervenção é custo-efetiva não a coloca automaticamente na cobertura pública. A decisão de incorporar envolve orçamento total, capacidade instalada, disponibilidade de profissional habilitado e prioridade frente a outras demandas. O que uma avaliação econômica faz é fornecer um dos insumos dessa decisão, não substituí-la. Esta matéria não afirma que a incorporação está em curso, porque essa apuração não localizou nada nesse sentido.

O que o estudo mediu, e o que ele não mediu

  • Mediu Pilates de solo com acessórios, supervisionado por fisioterapeutas, em serviço de reabilitação. Não mediu aula de estúdio comercial, nem trabalho com aparelho completo.
  • Mediu seis semanas de intervenção com seguimento de seis meses. Não mediu prática continuada por anos, que é como o método costuma ser vendido.
  • Mediu pessoas de 18 a 50 anos com dor lombar crônica inespecífica. Não mediu idoso, nem população sem dor, nem outras queixas.
  • Comparou com exercício domiciliar, e não com nenhum tratamento, com fisioterapia convencional ou com outra modalidade de exercício supervisionado.

O terceiro item é o mais importante para quem quer usar esses números numa proposta comercial. O comparador escolhido foi exercício em casa, que é uma alternativa barata e plausível, e não a ausência de tratamento. Isso torna o resultado mais exigente e mais crível, porque superar o quase nada é fácil e superar uma alternativa de custo baixo é difícil. Ao mesmo tempo, o resultado não autoriza dizer que o método é mais custo-efetivo que qualquer outra coisa, apenas que foi mais custo-efetivo que aquela alternativa específica, naquela população e naquele desenho.

Um limite que o desenho carrega e que merece ser dito com todas as letras é o de transporte. Custo é a variável mais local que existe numa avaliação em saúde, porque ela depende de salário, de aluguel, de preço de equipamento e de como o serviço se organiza naquele lugar. O ensaio rodou em serviço de reabilitação no Brasil, e é por isso que ele vale para a discussão brasileira. Pela mesma razão, os valores encontrados não se transportam para outro país sem refazer a conta, e nem sequer se transportam automaticamente entre regiões com estruturas de custo muito diferentes. O ensaio está registrado sob o número NCT03113292, com data de registro em 13 de abril de 2017.

O que sustenta o efeito clínico por trás da conta

Uma avaliação econômica só faz sentido se a intervenção funciona, e nesse ponto o material é sólido para dor lombar. Uma meta-análise publicada no Journal of Back and Musculoskeletal Rehabilitation em 2026, com busca até 11 de abril daquele ano, encontrou em mulheres com dor lombar crônica alívio de dor com diferença média padronizada de 1,88 negativo, com intervalo de confiança de 95% de 2,46 a 1,31 negativos, e melhora funcional de 1,08 negativo, com intervalo de 1,43 a 0,74 negativos. São efeitos grandes na convenção da área.

Há ainda um detalhe de custo que raramente entra em planilha e que vale registrar. Um ensaio randomizado publicado no Journal of Physiotherapy em 2026, com 152 pacientes de dor lombar crônica, mostrou que mudar apenas a orientação verbal dada em aula produziu diferença mensurável em incapacidade ao longo de doze semanas. Instrução não aparece como linha de custo em nenhum orçamento de estúdio, e é uma das poucas variáveis que se pode melhorar sem comprar nada.

Para quem administra um negócio no setor, a leitura estratégica é esta. Existe, agora, evidência econômica produzida no Brasil, com limiar brasileiro, mostrando que o método supervisionado se paga na perspectiva da sociedade quando comparado a exercício em casa. Esse é um argumento sério para conversa com operadora de saúde, com empresa que banca benefício e com gestor público. E ele tem contorno claro, vale para dor lombar crônica em adulto de 18 a 50 anos, com supervisão profissional, em seis semanas de programa. Sair desse contorno é usar o estudo para dizer o que ele não diz.

Perguntas frequentes

O Pilates é coberto pelo SUS? Segundo o próprio artigo, o Ministério da Saúde recomenda terapias por exercício, e o Pilates ainda não é coberto pelo sistema público brasileiro.

O que é ano de vida ajustado por qualidade? É a medida que combina tempo de vida e qualidade desse tempo numa única unidade, em que um ano vivido em saúde plena equivale a um.

Por que os valores estão em dólares? Porque é assim que o artigo os apresenta, inclusive o limiar, declarado como 15.500 dólares equivalentes a R$ 40.000. Nenhuma conversão foi feita por esta redação.

Isso vale para estúdio particular? O estudo mediu programa supervisionado por fisioterapeutas em serviço de reabilitação, com solo e acessórios. Não mediu estúdio comercial nem trabalho com aparelho completo.

Serve para convencer um convênio? É um insumo, e um insumo brasileiro, o que é raro. Decisão de cobertura envolve outros fatores, como orçamento total e capacidade de atendimento, que este estudo não trata.

Fontes

Laura Montenegro
Redatora Editorial · PILATES ARCHIVE