Pilates e desempenho, 3,7 METs e um ganho de salto mínimo

Mulher deitada de costas sobre um tapete em piso escuro, com as pernas erguidas e uma bola clara apoiada junto ao tronco, durante exercício abdominal

Um estudo piloto randomizado publicado no Journal of Dance Medicine and Science em 2026 acompanhou 22 dançarinos de hip-hop de uma companhia brasileira independente, 11 em 12 semanas de Pilates clássico de solo, com 24 sessões e duas horas por semana, e 11 seguindo a rotina de sempre. O grupo que praticou melhorou em três testes de força e resistência abdominal, com p de 0,016 no Double Leg Lower, p de 0,016 no Curl-up e p abaixo de 0,001 no teste de abdominais de um minuto. Até aí, a manchete se escreve sozinha. O que ela esconde é o segundo conjunto de números.

No salto com contramovimento, o resultado foi significativo, com p abaixo de 0,001, e tamanho de efeito de 0,06. No salto agachado, p de 0,008 e tamanho de efeito de 0,02. Tamanho de efeito é a medida de o quanto uma diferença é grande, e não de o quanto ela é confiável. Na convenção mais usada, valores em torno de 0,2 já são considerados pequenos. Um efeito de 0,06 está muito abaixo disso, e a palavra que a literatura usa para essa faixa é trivial. Traduzindo, o estudo detectou uma diferença real e minúscula. O equilíbrio dinâmico não mudou.

Significativo quer dizer relevante?

Não, e este é provavelmente o mal-entendido mais caro do marketing esportivo. Significância estatística responde se a diferença encontrada é provavelmente real ou se poderia ser obra do acaso. Tamanho de efeito responde se essa diferença faz alguma diferença. As duas perguntas são independentes, e um estudo pode responder sim para a primeira e praticamente não para a segunda, que é exatamente o caso do salto aqui. Os próprios autores escrevem que os achados são preliminares, que não estabelecem eficácia e que precisam de confirmação em ensaios maiores e com poder estatístico adequado.

A honestidade do artigo merece registro, porque ela é rara. Está tudo no mesmo resumo, o p pequeno, o efeito trivial e o aviso de que aquilo não prova nada sozinho. Quem lê só a primeira linha sai anunciando que o Pilates melhora o salto de atleta. Quem lê o parágrafo inteiro sai sabendo que ele melhorou força de tronco em 22 dançarinos e mexeu quase nada no salto deles.

Qual é a intensidade real de uma sessão?

Uma revisão sistemática publicada na Systematic Reviews em 2026 foi medir isso e reuniu seis estudos com medida de gasto energético. A estimativa combinada de uma sessão típica ficou em 3,7 equivalentes metabólicos, com intervalo de confiança de 95% de 3,1 a 4,3, e 3,8 quilocalorias por minuto. A frequência cardíaca média foi de 108,6 batimentos por minuto e o esforço percebido, 10,6 numa escala que vai de 6 a 20. Quando os autores excluíram dois estudos com alto risco de viés e sem calorimetria indireta, os valores caíram para 3,0 equivalentes metabólicos e 2,9 quilocalorias por minuto, e é essa a estimativa que eles apontam como a mais confiável do ponto de vista metodológico.

Equivalente metabólico é a medida de quantas vezes o gasto de energia de uma atividade supera o gasto em repouso. A conclusão dos autores é direta, dentro do limite de uma base de evidência escassa e muito heterogênea, o Pilates produz intensidade metabólica de leve a moderada, e as estimativas são exploratórias, com certeza classificada de muito baixa a baixa. Um detalhe operacional saiu junto, o intervalo de descanso apareceu como moderador, com pausas de até 60 segundos associadas a intensidade maior.

Colocando os dois trabalhos lado a lado, o quadro de desempenho fica assim.

  • Força e resistência de tronco, é onde o ganho apareceu com tamanho de efeito de 0,60 e 0,63 no estudo com dançarinos.
  • Potência de salto, ganho detectável e trivial, 0,06 e 0,02, sem relevância prática declarada.
  • Equilíbrio dinâmico, sem mudança no mesmo estudo.
  • Condicionamento metabólico, faixa de 3,0 a 3,7 equivalentes metabólicos, que é intensidade leve a moderada e não substitui trabalho aeróbico de intensidade maior.

Para quem treina ou atende atleta, a leitura útil é de complemento, e não de substituição. O material disponível posiciona o método como trabalho de tronco e de controle, com custo metabólico moderado, e não como fonte de potência nem como condicionamento cardiorrespiratório. Vender ganho de salto com base em um efeito de 0,06 é usar um número verdadeiro para dizer uma coisa falsa.

Perguntas frequentes

Quantas calorias uma aula gasta? A estimativa mais confiável da revisão de 2026 é de 2,9 quilocalorias por minuto, e a estimativa combinada geral, de 3,8. A certeza da evidência foi classificada de muito baixa a baixa.

Serve para atleta de alto rendimento? Os dados aqui vêm de 22 dançarinos e de seis estudos de gasto energético. Nada nesse material foi feito com atleta de elite, e nenhum deles mediu desempenho em competição.

O que é tamanho de efeito? Tamanho de efeito é a medida de quão grande é a diferença entre dois grupos, em unidades comparáveis entre estudos. Ele responde se a diferença importa, enquanto o valor de p responde se ela é provavelmente real.

Dá para usar como treino aeróbico? A faixa de 3,0 a 3,7 equivalentes metabólicos caracteriza intensidade leve a moderada. A revisão não comparou o método com nenhuma modalidade aeróbica.

Fontes

Tábata Moraes
Redatora · PILATES ARCHIVE