Existem hoje máquinas que juntam reformer com remo ou com bicicleta, aulas de Pilates com peso livre e TRX no cardápio das grandes redes, e marcas que usam o aparelho e devolvem o nome. Os números de uma grande plataforma de reservas mostram que a fatia de alta intensidade cresceu menos que o Pilates de solo e que o treino de baixo impacto. E o aparelho que Joseph Pilates patenteou em 1927 já era, no próprio texto da patente, um dispositivo de resistência.
Existe um aparelho que é meio reformer e meio máquina de remo. De um lado, o carro deslizante sobre molas que qualquer pessoa que já entrou num estúdio reconhece. Do outro, um remo. A empresa australiana que o fabrica chama a peça de Rowformer, tem uma versão com bicicleta chamada Bikeformer, opera sob a marca STRONG Pilates e existe desde 2019, segundo a reportagem da revista Health publicada em agosto de 2026 e a apuração da publicação setorial The Pilates Journal.
Esse aparelho é o melhor lugar para começar, porque ele é a única parte do fenômeno que não é discurso. Uma aula pode se chamar do que quiser. Uma máquina com um remo parafusado onde havia uma barra de pés é decisão de engenharia, com custo, fábrica e registro atrás dela.
A pergunta que interessa é se o boom atual está mudando só a embalagem do Pilates ou se está começando a mexer no produto. As duas respostas têm evidência, e elas não estão no mesmo lugar.
Os números do boom não descrevem uma corrida por intensidade
A ClassPass, plataforma de reservas de aulas, publicou em dezembro de 2025 o relatório Look Back com a variação de reservas entre 1 de janeiro e 10 de outubro daquele ano, na comparação anual. Pilates cresceu 66%. Reformer cresceu 71. Pilates de alta intensidade cresceu 27%, exatamente o mesmo número que o treino de força registrou na plataforma. O que a ClassPass classifica como treino de baixo impacto cresceu 112%, e o Pilates de solo, 114.
Convém dizer o que esses números são e o que não são. São reservas em uma plataforma, não o mercado inteiro, e a empresa está relatando o próprio negócio. Ainda assim, é registro de escolha efetiva e não de intenção declarada, e ele aponta para o lado contrário da conversa. Dentro de um ano em que o Pilates dominou a plataforma, o formato explicitamente vendido como mais duro cresceu 27%, abaixo de todas as outras fatias de Pilates que a própria empresa listou. A fatia que dispensa aparelho, o Pilates de solo, é justamente a que registrou a maior variação entre elas.
Isso não desmente a percepção de que a intensidade está em alta. Sugere que ela está em alta na conversa antes de estar em alta na agenda.
O apetite por força veio de fora do Pilates e entrou pela linguagem
A demanda por força existe, e ela aparece com clareza fora do estúdio. A Strava divulgou em dezembro de 2025 o seu relatório anual, com mais de 30 mil respondentes na parte de pesquisa, e registrou que mulheres tiveram 21% mais probabilidade que homens de registrar musculação na plataforma em 2025. Registrou também que a geração Z tem o dobro de probabilidade da geração X de dizer que musculação é o seu esporte principal.
A pesquisa anual de tendências do American College of Sports Medicine, publicada em outubro de 2025 e referente a 2026, colocou treino de força tradicional em sétimo lugar. Na quinta posição ficou uma categoria batizada de balance, flow and core strength, equilíbrio, fluxo e força de centro, que é onde a entidade agrupou o tipo de trabalho que o Pilates faz.
Duas coisas verdadeiras ao mesmo tempo. A palavra força ganhou prestígio cultural, com peso particular no público feminino, e o Pilates ocupa uma casa vizinha à dela na taxonomia da própria indústria. Quem vende aula lê esse mapa. A leitura editorial aqui é simples, o vocabulário se ajusta antes da aula porque custa menos ajustar vocabulário.
Baixo impacto e força pararam de ser opostos porque um cardápio comercial os juntou
A solidcore, rede americana de estúdios, descreve no próprio site o que vende assim.
“Treino de força de alta intensidade e baixo impacto.”
solidcore, autodescrição no site oficial (tradução nossa)
E chama o equipamento de pilates-inspired reformer, reformer inspirado no Pilates. Ou seja, usa o aparelho e devolve o nome.
A franquia Club Pilates faz o movimento contrário, mantém o nome e alarga o conteúdo. O cardápio publicado no site da rede traz Circuit, descrita como Pilates with a Pulse e apresentada como combinação de força, mobilidade e cardio. Traz Suspend, que junta reformer e TRX. Traz Control, que usa Springboard, discos deslizantes, bola e pesos livres. Traz Cardio Sculpt, com jumpboard e movimento pliométrico contra tensão de mola regulável.
Repare no que aconteceu com as duas palavras. Baixo impacto e força deixaram de parecer opostos porque alguém precisou vender as duas na mesma aula de cinquenta minutos, e a linguagem se acomodou. Não foi um debate técnico que resolveu a oposição. Foi uma grade de horários.
O aparelho já era um dispositivo de resistência em 1927
Antes de decidir se isso é traição, vale ler o documento fundador do objeto. Em 15 de março de 1927 o escritório americano de patentes concedeu a Joseph Pilates a patente US1621477, com o título Gymnastic apparatus, depositada em agosto de 1925 e com prioridade alemã de agosto de 1924. O texto descreve um carro móvel que recebe o usuário deitado e que é movido por ele.
“Contra o esforço exercido por quaisquer membros de resistência adequados.”
Patente de Joseph Pilates, 1927 (tradução nossa)
O reformer nasceu como máquina de resistência regulável, com peso, corda e polia na versão descrita na patente. Quem estranha ver carga, mola pesada e vocabulário de força dentro de um estúdio de Pilates está estranhando algo que já estava na primeira folha do projeto.
Isso não encerra a discussão. Muda o lugar dela. A pergunta deixa de ser se o Pilates pode envolver força, porque sempre envolveu, e passa a ser quanta coisa nova cabe no aparelho antes de a coisa virar outra.
A palavra é livre desde 2000, e por isso a fronteira nunca foi jurídica
Em 19 de outubro de 2000 a juíza Miriam Cedarbaum, do tribunal federal do distrito sul de Nova York, decidiu o caso Pilates, Inc. v. Current Concepts, Inc., 120 F. Supp. 2d 286, e mandou o escritório americano de patentes e marcas cancelar os registros da marca Pilates. O fundamento foi o de que o termo tinha virado genérico. Na formulação da corte, reproduzida na análise do escritório de advocacia Stites and Harbison,
“Consumidores identificam a palavra Pilates como um método específico de exercício.”
Juíza Miriam Cedarbaum, Pilates, Inc. v. Current Concepts, Inc., 2000 (tradução nossa)
Daí não existe autoridade que licencie o nome nos Estados Unidos. A fronteira entre evolução do método e outra modalidade usando o nome não é uma questão que advogado resolva, e nunca foi. É escolha comercial, e as marcas escolhem lados diferentes.
Um eco histórico ajuda aqui, porque mostra que a escolha é antiga. Pela própria cronologia publicada pela Lagree Fitness, Sebastien Lagree começou em 1998 em Los Angeles, certificou-se em Pilates e passou a usar técnicas de musculação sobre reformers. Em 2006 lançou equipamento próprio, o Proformer, que a empresa descreve como projetado para um treino que se provou muito diferente do método Pilates. Em 2019 a companhia redefiniu o que faz como treino de resistência muscular de corpo inteiro, de alta intensidade e baixo impacto. A mesma fusão de palavras que hoje soa nova já estava escrita ali, sob nome próprio e fora do guarda-chuva.
O mesmo texto da Lagree afirma que o Pilates tradicional permaneceu inalterado desde os anos 1960. Isso é declaração de parte interessada sobre um concorrente, e não é fato apurado. Mas é revelador do que uma marca precisa dizer para justificar a saída do nome.
Dentro do método, a discussão em 2026 é sobre formação, não sobre carga
Enquanto o mercado discute intensidade, quem está dentro do método discute outra coisa. Em 4 de maio de 2026 a BBC publicou reportagem sobre pedidos de regulamentação do reformer no Reino Unido, com a Pilates Foundation alertando que aulas são potencialmente perigosas nas mãos de quem teve pouco tempo de formação. Nathan Benjamin Smith, dono de um estúdio em Oxfordshire, disse à emissora que cursos mais curtos variam muito em profundidade e qualidade. A instrutora Nicki Fussell, formada em um programa Polestar de dois anos, disse que sem conhecimento profundo é difícil incorporar o método.
Três dias depois, em 7 de maio de 2026, a certificadora britânica YMCA Awards publicou um chamado por padrões mais altos. Lianne Clark, que a chefia, escreveu que o crescimento rápido do Pilates é uma oportunidade e traz a responsabilidade de garantir que a qualidade acompanhe a demanda.
Repare no deslocamento. A ansiedade profissional registrada em 2026 não é sobre remo acoplado a reformer. É sobre quem está na frente da sala e quantas horas essa pessoa estudou. A briga pela integridade do método está sendo travada no capítulo da formação, não no da carga.
Então a resposta tem duas partes que não se anulam. Na linguagem, no cardápio e no posicionamento, o que mudou até agora é sobretudo embalagem, e os dados de reserva não mostram o consumidor correndo para a versão mais dura. No equipamento, mudou o produto, porque uma máquina com remo soldado ao carro não é variação de repertório, é outro objeto. As duas coisas convivem sob a mesma palavra desde que a palavra deixou de pertencer a alguém, em 2000.
Fontes
- ClassPass, 2025 Look Back Report
- cobertura da SGB Media
- Health, Maggie Donahue, reportagem sobre o STRONG Pilates, agosto de 2026
- American College of Sports Medicine, Top Fitness Trends 2026
- Escritório americano de patentes, patente US1621477, Gymnastic apparatus, 1927
- Pilates, Inc. v. Current Concepts, Inc., 120 F. Supp. 2d 286 (S.D.N.Y. 2000)
- BBC News, pedidos de regulamentação do reformer no Reino Unido, maio de 2026
Laura Montenegro
Redatora Editorial · PILATES ARCHIVE
